O que a Alemanha tem a ensinar ao Flamengo.

Bernard e Sami Khedira durante Brasil 1 x 7 Alemanha – Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

ANDRÉ
ROCHA
: A Alemanha foi campeã mundial em 2014 no Maracanã com sua tradicional
camisa branca. Mas na vitória mais emblemática e histórica, o uniforme era
rubro-negro. Assumidamente inspirada no Flamengo, numa clara tentativa de
conquistar a simpatia da maior torcida do país. Conseguiu, mesmo impondo a
maior derrota do futebol cinco vezes campeão do mundo.

Agora
é a vez do Fla se inspirar na Alemanha. País que com três títulos mundiais
resolveu se transformar. Condicionada, sim, por resultados frustrantes nas
Copas de 1994 e 1998 e na Eurocopa 2000. Mas entendendo que as eliminações eram
consequência de um desempenho insatisfatório. Fruto de um estilo ultrapassado.
A
mudança passou por clubes, desde a formação até o profissional. O
vice-campeonato mundial em 2002 ainda seguindo a velha escola poderia ser
tratado como um sinal de que era possível vencer da mesma forma. Não mudou em
uma vírgula o planejamento a longo prazo.
Não é
na reestruturação do futebol em campo que o Flamengo precisa ter a Alemanha
como espelho, embora seja um ótimo modelo. 
Mas sim na certeza de que a escolha de um caminho é essencialmente
filosófica. Parte da ideia de que é a coisa certa a fazer. Mesmo que de 2005 a
2014 a seleção tenha convivido com eliminações seguidas nas semifinais. Da Copa
das Confederações em casa até a Eurocopa 2012, caindo para a Itália.
A
mudança no comando técnico, de Klinsmann para Joachim Low, foi absolutamente
natural na manutenção do projeto. Na Eurocopa do ano passado, eliminação de
novo na semifinal para a anfitriã França. Low segue e a perda do título não
motivou nenhuma alteração no que estava projetado. Reservas na Copa das
Confederações para dar férias aos mais experientes e rodagem aos mais jovens.
Com o
mesmo propósito, mandou um grupo bastante jovem para a Olimpíada do Rio de
Janeiro, até aproveitando o limite de 23 anos. Medalha de prata e mantendo a
imagem para o mundo de prezar o bom futebol. Desde a vontade de privilegiar a
técnica há mais de uma década, passando pela influência dos três anos de Pep
Guardiola no Bayern de Munique para valorizar ainda mais a posse de bola. Mas
também bebendo da fonte de Antonio Conte na execução do 5-4-1. Primeiro da
Itália na Eurocopa e agora do Chelsea campeão inglês.
O
principal: nenhuma derrota foi capaz de mudar as ideias e ideais dos alemães.
Porque sabem que não há controle sobre resultados, nem garantia de títulos. Mas
é saudável e também é possível fazer história pela bola jogada e não só pelas
taças levantadas. Fazem porque acham o melhor caminho a seguir.
A
diretoria encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello equacionou dívidas, aumentou
receitas e prometeu um Flamengo forte em três anos. A torcida comprou a ideia,
mas agora começa a cobrar com mais intensidade os títulos relevantes na
temporada brasileira e sul-americana.
Como
se fosse uma equação exata, sem chances de equívoco: time popular + altas
receitas = elenco qualificado, estádios lotados e hegemonia no país e no
continente.
A
questão é que futebol e matemática ou lógica nem sempre combinam. Ainda mais
nessas terras de tanta alternância de poder. Com um Palmeiras que quase caiu
pela terceira vez em 2014, mas com o auxilio inicial do presidente milionário
Paulo Nobre e depois a injeção da Crefisa, alcançou resultados mais
rapidamente: uma Copa do Brasil, um Brasileiro. Ainda vivo na Libertadores,
prioridade no ano.
Agora
um Corinthians que em termos de gestão tem muitas lacunas, mas dentro do campo
construiu uma identidade vencedora com Mano Menezes e Tite que Fabio Carille
resgata e forma um time competitivo que abre nove pontos em relação ao terceiro
colocado Flamengo. O vice é o Grêmio que construiu um modelo de jogo com Roger
Machado e Renato herdou acrescentando seu carisma e ajustando o que não vinha
dando certo. Faturou uma Copa do Brasil e encaminhou a vaga na semifinal do
mesmo torneio com os 4 a o sobre o Atlético-PR.
Clubes
que no momento estão na frente do Flamengo, que acerta nas finanças, mas nem
tanto no futebol. Contratações, montagem de elenco. Ano passado se equivocaram
ao não preparar um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de viagens
seguidas. Custou o fôlego na reta final da última temporada.
Corrigido
em 2017 com a Arena da Ilha do Governador. Questão de tempo e aprendizado. Que
deve seguir mesmo que não venham o Brasileiro, a Copa do Brasil e a
Sul-Americana até dezembro. Sem a visão limitada de que é melhor voltar aos
tempos de equipes vencedoras montadas sem compromisso com orçamento.
Porque
mesmo que clubes vivam de glórias mais que as seleções, os títulos não podem
ser um fim em si mesmo. A Alemanha começou a semear em 2000 e colheu 14 anos
depois. Sem desvios. Porque havia convicção de que o resultado viria em algum
momento. Porque era a coisa certa a fazer.
A
seleção de Joachim Low está em mais uma decisão. Depois dos 4 a 1 na semifinal
da Copa das Confederações contra o México. Mostrando ao mundo Goretzka, Werner
e um futebol atualíssimo. Alternando linhas de quatro, cinco e até seis homens.
Jogadores técnicos e inteligentes formados lá atrás e ganhando minutos e
vivência com uma camisa pesada.
Mas se
perderem a final para o Chile, país sem grande tradição com a sua melhor e
maior geração da história, nada vai mudar. Nem um sinal de arrependimento de
poupar os mais veteranos, nada de ”tivemos a chance de ganhar mais uma taça”.
O trabalho segue com seus processos. Sem imediatismo.
Um bom
norte para o Flamengo não mirar o futuro querendo voltar a um passado que
deixou conquistas, mas também caos e um enorme passivo que quase inviabilizaram
a recuperação dos últimos anos. Manter as contas em dia e investir em estrutura
é o básico, o correto. Não necessariamente uma receita de bolo para empilhar
troféus.

Por: FlaHoje

MAIS LIDOS

Black Friday: Flamenguistas brincam e colocam jogadores à venda

O Flamengo tem hoje um dos principais elencos do futebol sul-americano. Mesmo já contando com um elenco qualificado após as grandes conquistas do ano...

Destaque na Europa, Samir se declara ao Fla e fala em ‘saudade’

O Flamengo teve grandes jogadores ao longo dos últimos anos fazendo parte do seu sistema defensivo. Um dos atletas que acabou se transferindo para...

Flamengo ganhará uma bolada eliminando o Racing; veja os valores

O Flamengo está vivendo um momento financeiro conturbado. O Rubro-negro fez um planejamento ousado para 2020, entretanto, a pandemia colocou os planos do clube...

Balbuena é especulado no Fla; veja os seus melhores momentos na Europa

O Flamengo está melhorando o seu desempenho desde da saída do técnico Dome Torrent. Entretanto, um dos pontos que ainda precisa melhorar é o...