quinta-feira, outubro 1, 2020
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O sonho de Didi: a questão do técnico negro.

ESPN
– A questão do técnico negro ocupa um lugar estratégico na luta pela
democratização das relações raciais na sociedade brasileira. Em torno dela
giram interesses arraigados, estereótipos duradouros e estruturas persistentes,
que mantêm o caráter assimétrico da interação envolvendo brancos e negros
dentro e fora da esfera do futebol. A pesquisa histórica acerca do tema tem
procurado retraçar as etapas percorridas por uma batalha que remonta a Domingos
da Guia, inclui Djalma Santos e encontra na reivindicação do cargo de treinador
da Seleção Brasileira, feita por Didi, o exemplo paradigmático dos limites
traçados à aspiração dos negros que, uma vez penduradas as chuteiras,
projetaram-se na nova profissão. A imprensa esportiva, de modo geral, atribuía
o insucesso da empreitada ao simples acaso, às circunstâncias adversas, ou,
ainda, à inaptidão para o exercício do cargo. Convém, porém, empreender o
esforço para expor a questão sob uma nova luz.

Com
efeito, segundo a hipótese aqui defendida, mais do que interditar o acesso ao
posto de técnico, as linhas de cor no futebol canalizavam as trajetórias dos
negros para áreas específicas da atividade futebolística onde a sua presença,
por assim dizer, mostrava-se mais integrada à “ordem natural das
coisas”. Estas áreas podem ser assim enumeradas: 1) as categorias de base
nos aparelhos de produção dos clubes; 2) as equipes pequenas e do interior em
busca de promoção nas competições; 3) as escolinhas de futebol mantidas pelo
poder público para jovens e adolescentes nas regiões mais desprivilegiadas da
cidade; 4) a eterna condição de técnico interino das principais agremiações do
país.
O
episódio relativo às declarações públicas de Cristóvão Borges a respeito do
racismo no futebol insere-se no último item. Elas possuem o mérito de explicitar
parte do mecanismo através do qual a posição do técnico negro em um clube de
projeção nacional como o Flamengo vai sendo, pouco a pouco, minada, e isto não
apenas pelas manifestações abertas e estridentes de racismo nas redes sociais
ou nas arenas esportivas, mas, sobretudo, por críticas especializadas que
mesclam a abordagem de aspectos táticos com a análise de questões extrínsecas à
meritocracia. Situadas no terreno da ambiguidade, as estratégias veiculam e
propagam a mensagem destinada a reassegurar o leitor, o ouvinte ou
telespectador da suposta verdade contida na disjunção estabelecida pela
ideologia racial entre o ex-atleta negro e o treinador dos assim chamados
grandes clubes. Pois, de fato, não se trata de simplesmente bloquear o acesso à
profissão em tela. O racismo no campo do futebol, para citarmos Florestan
Fernandes, traça linhas invisíveis de especialização, configurando, dessa
maneira, áreas de aceitação, zonas de exclusão, espaços mais abertos à
negociação.[1]
De
fato, posto nestes termos, podemos observar a existência de um padrão de
comportamento que se mantém e perpetua ao longo do tempo. Dois exemplos
escolhidos ao acaso: no início dos anos setenta, o Botafogo dirigido por
Leônidas foi vice-campeão brasileiro, e mais recentemente Andrade esteve à
frente do Flamengo na conquista do título nacional. Mas logo em seguida ambos
acabaram demitidos. Um revés em uma competição muitas vezes basta para decretar
o fim da interinidade em que se encontra de forma permanente o técnico negro.
Se a pressão decorrente da súbita eliminação em um torneio torna compreensível,
embora não necessariamente justificável, a demissão, o fato de que ele não
encontre a chance de prosseguir na profissão noutro clube de expressão
constitui o cerne do problema. De fato, após realizar um trabalho convincente
em um grande time o técnico negro quase sempre se vê constrangido a regredir na
carreira, quer reassumindo as categorias de base do clube que o projetara, quer
dirigindo uma esquadra pequena que o condena ao ostracismo.
A
esfera do futebol, portanto, impõe um padrão de comportamento, estabelece uma
dinâmica racial, define um conjunto de linhas de especialização para o
treinador negro, criando dificuldades para a mobilidade vertical. Mas estas
linhas, como assinalado acima, não têm como finalidade principal barrar a
entrada do ex-atleta negro no campo da nova profissão, mas, sim, canalizar-lhe
a trajetória, orientando-a para os lugares predeterminados, a saber: as
escolinhas de futebol, as categorias de base, os clubes pequenos, as
agremiações do subúrbio, ou, mesmo, as equipes de menores
“infratores” e times do cárcere. Em cada uma destas esferas de
atuação, são-lhe designadas funções específicas, respectivamente: descobrir
novos talentos; promover de série a equipe pequena; educar e entreter jovens e
adolescentes marginalizados; ressocializar os prisioneiros; ou, ainda, quando
nos grandes clubes, desfrutar da condição de eterno interino. Aqui, a figura do
treinador negro parece deslocada, fora de lugar, contrária à lógica cultural
que orienta o olhar e naturaliza a cena. Talvez seja auxiliar técnico em um
time de massa, porém, dificilmente treinador da Seleção Brasileira.
*
professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia
Corinthiana” e do artigo”Futebol e racismo: o mito da democracia
racial em campo”
José
Paulo Florenzano

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