quarta-feira, setembro 23, 2020
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O técnico-antibiótico.

Mauro
Cezar Pereira – O time está em crise e joga mal. Sem qualquer convicção e
coragem para sustentar um trabalho de médio a longo prazo, os dirigentes se
movimentam, cochicham, se reúnem, discutem nos grupos de WhatsApp. E demitem o
treinador. Antes, após uma derrota, o decisivo diálogo é travado.
— E
agora, o que fazer? — indaga o diretor de futebol, considerado o mais
cauteloso.

Procurar outro, claro — responde o vice.

Mas quem? — pergunta o presidente, inseguro.

Alguém que dê uma chacoalhada no time — rebate o vice, todo valente.

Isso. Esses caras precisam de uma sacudida —se empolga o “presida”.
— Já
que vão mudar mesmo, que tal Fulano? — questiona o diretor.

Ele é bom, mas retranqueiro — discorda o vice.

Sicrano? — sugere o cauteloso.

Xi, esse não sabe montar defesas — rejeita o presidente.

Mas é um treinador que podemos pagar — adverte o diretor.

Nada disso, Beltrano é o nome certo. Anda meio em baixa, mas tem currículo e
muitos títulos — define o vice.

Faz tempo. Essas conquistas estão lá no passado, isso é verdade. Mas o cabra é
bom — se amima o presidente.
— E
está sem clube — acrescenta o vice.

Mas se ele é bom por que está sem clube? — indaga o diretor.

Ih, vamos parar. Não é hora de procurar pelo em ovo — rebate o vice, que anda
de um lado para o outro pela sala com as duas mãos nos bolsos da calça.

Exatamente. Além disso esse cara chega aqui e atrai a mídia, assim torcida e
imprensa esquecem da gente um pouco — reflete o presidente, com um sorriso no
canto da boca enquanto traga um charutão.
—  Mas é um técnico caro — lembra o diretor,
coçando a careca, pensativo.
— Lá
vem você de novo querendo arrumar problemas — reclama o vice.

Vamos contratar e depois nós vemos como é que fica — bate o martelo o
presidente.
— É
que a dívida do clube é grande… — acrescenta o diretor, provocando olhares
furiosos da dupla, preocupada em resolver tudo logo, sem pensar.

Mais um pouco ou menos um pouco, um técnico não vai mudar isso — diz o vice.

Quem sabe não volta a trabalhar como nos bons tempos? — sonha o presidente.

Temos que ter esperança — eleva o tom o vice, com o punho cerrado.
— E
antes de qualquer coisa nos livrarmos desse camarada aí que não ganha de
ninguém — grita o presidente, com raiva, dando um soco na mesa.
— E
como não é um treinador famoso, um medalhão, os resultados do time já começam a
respingar em nós. Hoje a polícia teve que tirar da arquibancada uma faixa que
pedia as nossas cabeças — destaca o vice, preocupado.

Mas o time está melhorando, trouxemos vários jogadores no meio da temporada…
— diz, baixinho, o diretor, já meio amedontrado.

Vai explicar isso pra torcida, vai — berra o vice, cuspindo abelha-africana.

Pra torcida e para aquele jornalista que não para de nos cornetar na Internet,
no jornal, no rádio e na televisão — reforça o presidente.

Temos que dar um cala-boca nele também — concorda o vice.
— É,
e esse cara gosta do técnico que iremos buscar — ressalta o
“presida”, sorridente e orgulhoso com o que acabara de dizer e
imaginando que terá um aliado na imprensa.

Mas… — sussurra o diretor, sem ser ouvido.

Fechado! Shirley, me liga com o agente do professor Beltrano — grita o
presidente dando uma ordem à secretária. Ou melhor, telefone logo para ele, vou
conversar diretamente com o técnico — decide.
A
conversa acontece, o “professor” é contratado, vira manchete, a
torcida até se empolga e enche o estádio. Grife, famoso, ele causa impacto
inicial e o time reage, vence partidas, mas depois… Futebol ruim e resultados
aquém do esperado. Derrotas. Os problemas de sempre continuavam lá.
Os
cartolas haviam contratado mais um técnico- antibiótico, aquele que tira o
doente da crise, combate o mal mas não trata da doença em definitivo. Até
porque esse mal é composto por vários “vírus”, entre eles muitos
dirigentes tão comuns em nosso futebol. E o mais incrível: tem torcedor que
gosta disso.

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