domingo, setembro 20, 2020
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Opinião: O Fla-Flu paulistano.

Foto: Thiago Ferri

LANCE:
Passaram-se três anos. Em sua coluna de segunda-feira, dia 8 de abril de 2013,
na página dois do LANCE!, o então colunista Benjamim Back propunha que as
finais do Carioca daquele ano fossem realizadas no Pacaembu. O Maracanã estava
em obras para a Copa das Confederações, o Engenhão interditado por problemas na
cobertura e São Januário não era liberado pela PM para a realização de
clássicos. Uma situação bastante semelhante com a que o Rio vive hoje.

Benja
lembrava que, dois anos antes, a torcida do Flamengo havia lotado o Pacaembu na
final da Copa São Paulo de Juniores em que o clube carioca derrotara o Bahia.
Outro argumento era a pesquisa LANCE! Ibope que mostrava a forte presença de
torcedores dos times do Rio – especialmente o rubro-negro – em São Paulo. O
Flamengo tinha à época 1,1% dos torcedores paulistas, sendo a quinta maior
torcida do estado, à frente de Portuguesa, Guarani e Ponte Preta.
“Em
termos de marketing e repercussão não teria nada igual. A audiência na TV, com
certeza, também seria muito grande, além do que, não tenho a menor dúvida de
que o público em Sampa seria bem superior às médias atuais do Campeonato
Carioca”, escreveu Benja.
A
proposta gerou polêmica. “Teve gente que achou um barato e teve gente que me
detonou. Tomei muita porrada também”, diz o hoje âncora dos canais Fox Sports.
A Federação do Rio, dirigida pelo mesmo Rubens Lopes, bateu o martelo e marcou
as finais para o Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, com capacidade para 21
mil pessoas – aliás o mesmo número de ingressos vendidos antecipadamente até
sexta-feira para o Fla x Flu de hoje. A explicação do cartola foi patética:
– Nós
achamos que seria um desrespeito, uma falta da atenção com a torcida dos clubes
que são do estado – disse Rubinho.
Tão
patética que seria desmoralizada pouco tempo depois, na abertura do Brasileirão
de 2013, quando o Flamengo foi enfrentar o Santos em Brasília, no Mané
Garrincha, com uma das rendas e público mais altos do futebol brasileiro até
hoje. De lá para cá, os grandes do Rio, sempre às voltas com a falta de
estádios, jogaram, além da capital federal, em Manaus, Cuiabá, Natal, Cariacica
e por aí afora.
O
Fla-Flu paulistano deste domingo certamente vai ser uma festa – eu estarei lá,
vou levar meu filho para pela primeira vez ver o seu Flamengo ao vivo. Já
separou a camisa do Paulo Vitor e pediu uma bandeira. Tive de explicar que em
São Paulo – até quando essa estupidez vai perdurar – não se pode levar
bandeiras para o estádio, algo que por si só já prejudica o espetáculo. Será,
certamente, um encontro de famílias cariocas exiladas do lado de cá da Via
Dutra.
O lado
bom e bonito dessa história, contudo, começa e termina aí. As reais razões que
levaram o mais tradicional clássico do Rio a ser jogado em São Paulo estão
longe de serem nobres. Muito pelo contrário, são reveladoras do atraso, do
amadorismo e da inércia do futebol carioca.
Palmeiras,
São Paulo, Corinthians, Santos, Grêmio e Inter têm seus estádios próprios. É
injustificável que no Rio isso aconteça apenas com o Vasco. Que o clube de
maior torcida do Brasil não tenha uma arena à sua altura – e esta arena pode
até ser o Maracanã, desde que o Flamengo seja ao menos corresponsável pela
gestão, tenha direito, como dono do espetáculo, à maior parte das receitas, sem
ter de viver às turras em negociações nunca realmente vantajosas com operadores
privados ou recheadas de incertezas com o poder público estadual.
Tudo
bem, a realização da Olimpíada criou uma situação atípica. É uma exceção. Mas a
regra não é menos ruim. O futuro do Maracanã depois de tantas idas e vindas de
projetos e contratos e do abate da Odebrecht na Lava Jato é no mínimo
preocupante. Fla e Flu correm o risco de continuar a vida de nômade que marcou
os últimos anos. Já o Botafogo voltará a debater-se com a concessão do Engenhão
que, por mais generosa que tenha sido, sempre terá zonas de confronto.
Não é
por acaso que nos últimos anos os times do Rio só por espasmos belisquem o alto
da tabela nos Brasileirões. Que a rotina, mais amarga, seja a briga ali pelo
meio ou mesmo para salvar-se da degola. Falta de estádio não é tudo, é apenas a
parte mais visível de um estado de carências.
Luiz
Fernando Gomes -([email protected])

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