Os traços de Mourinho: “retranqueiro” ou reativo?

Foto: Papo da Nação

PAPO
DA NAÇÃO
: Na temporada europeia de 2003-04, trouxe-se a tona uma nova revolução
tática no futebol mundial. O futebol pragmático e pouco organizado, baseando-se
nos talentos individuais praticamente acabaria (não que tenha sido a primeira
vez, vejamos as clássicas seleções italianas e o carrossel holandês) após a
consumação do que até então era chamado de zebra, o título da Champions League
conquistado pelo Porto, time comandado por José Mourinho. Embora não tenha
havido uma final extremamente difícil, contra o Monaco, deve-se levar em conta
que o time francês eliminou os poderosos galáticos do Real Madrid, que contavam
nada mais nada menos que com Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Beckham, Raúl,
Casillas, entre muitos outros,  e o
Chelsea que vinha crescendo exponencialmente ao longo dos anos. Por outro lado,
o próprio Porto eliminou, antes da final, times como Manchester United, um dos
favoritos ao título, logo nas oitavas, o Lyon e, na semifinal, o melhor time da
história do Deportivo La Coruña, de Djalminha e Mauro Silva.

Certo
que aquele Porto tinha Deco, um jogador extraordinário, mas era um time bem
abaixo dos favoritos, que tinha a grande promessa Carlos Alberto (hoje no
Atlético Paranaense) como titular. E o que aquele time trouxe foi um show de
novidade táticas, organização, principalmente defensiva, intensidade e marcação
setorial, diferente da marcação individual que até aquela época era muito
utilizada. Entretanto, por dar show em inovações sobretudo no aspecto
defensivo, até hoje o português é tratado como um técnico defensivista, um
“retranqueiro” no modo grosso de se falar, e é isto que precisamos
quebrar aqui. Há uma enorme diferença entre possuir um futebol
defensivista e um futebol reativo, mas que muitas vezes ambos são bastante
confundidos principalmente por torcedores mais emocionais e que se levam
facilmente nas escolhas momentâneas do treinador de seu time. José Mourinho,
assim também como Carlo Ancelotti, é um dos grandes pilares do jogo reativo no
cenário mundial. O futebol reativo, como seu próprio nome já sugere, é dado
pela reação, ou seja, pela adaptação do seu time perante ao adversário.
Técnicos reativos privilegiam o estudo de seus adversários em detrimento à
criação de um padrão de jogo e isto muitas vezes cria uma certa indignação em
torcedores pouco acostumados com estes sistemas, que acabam não aceitando
certas variações apresentada pela própria equipe. Um técnico
“retranqueiro”, por sua vez, privilegia o padrão de jogo em
detrimento à adaptação, não importará o adversário, seu time quase sempre
deverá buscar diminuir suas linhas, compactar-se e buscar o jogo rápido e
direto.
E por
que aqui, num blog sobre o Flamengo, estamos tanto falando em futebol como um
todo? Na verdade, acontece que Zé Ricardo é um reflexo quase que completo da
figura de José Mourinho, claro que sem seu ego, intensidade e estresse em
níveis astronômicos, mas em nível tático podemos perceber uma grande semelhança
de ideias entre o “Special One” e Zé (coincidentemente, ou não,
chamado por um amigo meu de Mourinho dos trópicos). Zé Ricardo é extremamente
reativo, estuda os adversários e busca se adaptar a eles, adequando seu time à
forma como ele enxerga que pode vencer o confronto coletivo.
E é
interessante observar algumas críticas feitas pelos torcedores, por vocês em
geral, onde é dito que o Flamengo atualmente não possui padrão de jogo. Na
verdade isso é realmente um fato, mas é preciso entender que no futebol não há
uma receita de bolo para se ganhar partidas ou campeonatos, não é uma fórmula
tática perfeita para se conseguir um resultado. Guardiola e seu futebol
ofensivo e moderno ganhou muitos títulos ao longo da carreira, inclusive muitos
contra Mourinho, o que também não impede de Conte, um meio-termo entre o
defensivo e o reativo, e Ranieri, defensivo, terem sido os dois últimos
campeões ingleses, ou mesmo Zidane, também bastante reativo, ter ganhado por
duas vezes seguidas o título máximo europeu, algo inédito desde que a Champions
teve seus novos moldes. No Brasil vemos o mesmo, temos um técnico, este sim
defensivista, como líder absoluto do Campeonato Brasileiro, enquanto o moderno
e ofensivo Roger Machado ainda sofre para conseguir com que seu time absorva
todos os seus complexos conceitos táticos.
Faz-se
por necessário quebrar o paradigma de que se obter um padrão tático é algo que
só tem benefícios, quando na verdade a falta de padrão também é uma virtude,
dependendo de como a mesma é feita. Desde que o time mantenha-se organizado em
diferentes estilos de jogo, não ter um padrão pode se tornar muito perigoso
para o adversário, já que é muito difícil conseguir prever como o time jogará,
entretanto, também existem aspectos negativos, pois esta falta de padrão sempre
sobrecarregará a figura do técnico. Enquanto um técnico que privilegia o padrão
de jogo terá mais facilidade para evoluir seu time quando consegue encaixar o
seu estilo de jogo à equipe, um técnico reativo precisará sempre se inovar, já
que todos os jogos vão ser tratados de forma completamente diferentes, isto faz
com que pequenas escolhas erradas possam alterar fortemente no desempenho e era
este o principal defeito.
Em uma
partida de futebol, assim como qualquer esporte, existem inúmeras variáveis que
comprometem o resultado e o treinador deve pensar nos mínimos detalhes para
vencer. Em qualquer erro coletivo, o técnico sempre será o responsabilizado, já
que a escolha do plano de jogo e das peças em campo foi completamente dele e de
sua equipe e não a que já estava determinada por um certo padrão. Esta variação
também exige do próprio treinador estar antenado sobre estilos de jogo muito
diferentes e por vezes até opostos. No próprio Flamengo de Zé Ricardo, já vimos
muitas vezes o time jogar com um belo jogo de posição, defesa alta, dando
importância ao toque de bola e o controle do jogo, mas também já vimos logo em
seguida a defesa baixar e a equipe buscar o jogo direto devido a um aumento de
pressão do adversário, o que não é necessariamente algo ruim se for bem feito,
como foi comprovado ontem contra o Santos, onde mesmo com as linhas mais baixas
no segundo tempo, o Flamengo conseguiu ótimos conseguiu ótimos contra-ataques
com Berrío e o que gerou o segundo gol, de Cuéllar.
O
torcedor em geral deve entender que qualquer estilo de jogo ou qualquer aspecto
tático tem seus prós e contras, nada é perfeito, se fosse não precisaria nem
haver competição. Entendo que a busca por um DNA ofensivo é obcecante para o
fanático rubro-negro, mas não deve ser uma regra, nossa regra deve ser apenas
uma e descrita no nosso hino “vencer, vencer, vencer”, e maus
momentos também acontecem, só precisamos ter paciência e saber do que podemos
reclamar, pois a força do torcedor pode ser nosso maior mal, já que algumas
decisões podem ser irreparáveis e o arrependimento é o que fica, e se quiserem
um exemplo, perguntem os amigos colorados, porque nem sempre a mudança é algo
positivo.
Por
Mateus Garcia

Por: FlaHoje

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