Ousadia reprimida.

Márcio Araújo em Avaí x Flamengo – Foto: Frederico Tadeu

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: O Flamengo sofre para evoluir em sua ideia de controlar os
jogos com posse de bola. Após iniciar o ano com uma proposta audaciosa, tem
sido no contragolpe que o Fluminense faz mais dano aos rivais. Roger Machado,
caracterizado pela iniciativa e troca de passes, e Rogério Ceni, de ideias
arrojadas, andaram dando passos atrás em Atlético-MG e São Paulo,
respectivamente.

Cada
um destes times tem suas questões particulares, seus problemas. O que os une é
o cenário: o futebol brasileiro é um inibidor de ousadias, de apostas em
projetos sofisticados de times, que incluam preocupação estética, beleza. É um
convite à cautela, a modelos mais seguros e de execução mais simples. O estilo
de jogo hegemônico até aqui no Campeonato Brasileiro causa menos surpresa do
que a presença de alguns favoritos na parte de baixo da tabela. Nosso jogo
doméstico pende para a segurança defensiva e o contragolpe.
Dos 50
jogos disputados até aqui, os times com mais posse de bola venceram apenas 16,
ou 32%, segundo dados do “Footstats”. Um perverso conjunto de fatores estimula
o conservadorismo: o calendário impõe jogos demais e treinos de menos;
compra-se e vende-se jogadores toda semana, criando times em permanente
transformação, e não propriamente em formação; e a máquina de moer treinadores
trabalha de forma incessante ao sabor apenas do resultado. Prevalece o instinto
de autopreservação: ter segurança, zelar pelo resultado do próximo jogo e, quem
sabe, ganhar tempo para estabelecer algo mais autoral, um time com identidade
própria.
“Com a
falta de continuidade das equipes, nós nunca conseguimos passar do essencial”,
admitiu Mano Menezes, técnico do Cruzeiro, à ESPN Brasil.
Quando,
há uma semana, Cuca deixou no banco Felipe Melo, seu meio-campista mais dotado
tecnicamente, enviou uma mensagem importante. Optou por Tiago Santos, de menos
talento e mais adaptação ao seu sistema de marcação. Mostrou o quanto o sistema
vigente induz às soluções mais simples e imediatas. Implantar um modelo,
condicionar seus melhores jogadores a uma forma de jogar, exige tempo, esta
utopia brasileira. Pivô de uma das dez trocas de técnicos de times da Série A
em 2017, Cuca vê futebol de forma oposta ao antecessor, Eduardo Baptista. Sem
tempo de treinar, é obrigado a vencer, uma inversão de valores que torna
secundário o estilo. Técnico de DNA ofensivo, Cuca se defendeu na derrota para
o Coritiba.
Uma
defesa forte foi o ponto de partida para Fábio Carille construir este
Corinthians. Pressionado, sem grife, ganhou crédito e tempo minimizando riscos
e abrindo mão da estética. Agora, já faz o time evoluir na hora de atacar e
entregar momentos mais vistosos.
Não é
o cenário ideal, o mais atraente. Mas tem sido o atalho. Não há no Rio time com
estilo mais consolidado do que o Botafogo. Quando Jair Ventura ensaiou ameaçou
dar o passo adiante, ir além da aposta na marcação forte e da solução rápida no
contragolpe, uma mistura de falta de tempo para treino e características do
elenco o bloqueou.
Na
parte alta da tabela do Brasileiro, a desenvoltura com a bola faz do Grêmio uma
das agradáveis exceções da temporada. O Santos, ofensivo e dono de clara
identidade dada por Dorival Júnior, viu a boa avaliação de dois anos de trabalho
sucumbir a quatro rodadas do torneio. No Brasil, a ousadia é uma aposta cara.
Compra-se, vende-se
A
crise envolvendo Richarlison, Fluminense e o Palmeiras, justamente na véspera
do confronto entre os dois clubes, é prova definitiva: nada mina a formação de
times no país de forma tão criminosa quanto o comércio incessante. Estamos em
junho e a janela de transferências, que na prática nunca fechou, opera com a
voracidade de uma pré-temporada.
Os
jogos parecem acessórios enquanto compras e vendas dominam o noticiário. Entram
em campo os times da semana, todos descartáveis, provisórios. A insana busca
por vilões, que terminou em balas de borracha no CT do Flamengo, reflete o
modus operandi de um país que acredita tão pouco no trabalho estável, mas crê
que tudo se resolve com a queda do técnico de plantão, com a expulsão do
“culpado” ou com a contratação de um salvador. Afinal, o mercado está sempre
aberto. E os times nunca se formam.
A
derrota para o Sport, que ampliou a crise, veio numa semana em que só se falou
de Éverton Ribeiro, Rhodolfo, Geuvânio… Falava-se em Maicosuel no São Paulo,
no destino de Sassá. Até surgir o caso Richarlison e redefinir os padrões de
inconveniência.

Compartilhe

O FlaHoje é um portal eletrônico de notícias voltado exclusivamente os torcedores do Flamengo. Nosso objetivo é mostrar as principais notícias com qualidade, rapidez e imparcialidade, focando notícias do nosso time favorito, o Rubro-Negro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.