Pagando de santo, Botafogo posta canto com “hora da porrada.”

Por: Fla hoje

MAURO
CEZAR PEREIRA
: O caos no Rio de Janeiro não é segredo. Estado falido que não
paga os servidores, ex-governador preso, atual cassado, Polícia Militar
protestando e atuando abaixo do seu efetivo. É evidente que o futebol não teria
como escapar disso. Se a falta de segurança estimula a ação de criminosos,
óbvio que sabendo do baixo efetivo da PM, os brigões de sempre iriam pra
porrada, mesmo com algumas organizadas proibidas nos estádios.
Cenário
previsível, que poderia ser evitado com medidas antecipadas, como o adiamento
do clássico entre Botafogo e Flamengo. Mas não instantes antes do horário
marcado para o pontapé inicial, e sim na quinta-feira ou sexta. Por mais que
sejam bem-intencionados e estejam, cada um à sua maneira, tentando tirar seus
clubes do buraco, os dirigentes protagonizaram um show de horrores em meio a
essa barafunda.
O
domingo no Nilton Santos, o Engenhão, teve tudo de errado. De falhas
operacionais a oportunismo barato e arrogância. Na incerteza de disponibilidade
do efetivo da PM e a informação de que policiais do Gepe (o grupamento que faz
a segurança nos estádios do Rio de Janeiro) ficaram presos no batalhão de
Deodoro, incluindo seu comandante, o Major Silvio, o adiamento deveria entrar
em pauta, não tão tardiamente.
Mas a
ideia só cresceu quando mais de 20 mil pessoas já estavam no local do cotejo ou
a caminho. Não realizar o jogo àquela altura poderia ser pior, acirrando os
ânimos e obrigando todas aqueles torcedores a retornarem para casa antes do
previsto, em meio a uma atmosfera tensa e absolutamente insegura. À última
hora, o fato de um dos times atuar com reservas pode ter pesado na postura de
cada lado.
Então
surge dirigente alvinegro dando entrevista com camisa de clube e informações
desencontradas. Outro, rubro-negro, faz ironias sobre mais PMs no Engenhão do
que torcedores do time rival. O presidente do Flamengo, desinformado, fala
sobre questões de segurança pública, garantindo condições, sendo que não era o
mandante e três torcedores seriam baleados. Um morreria.
Com
sensibilidade paquidérmica, perfil do Flamengo no Twitter solta uma comemoração
exagerada após o triunfo apertado ante os reservas do Botafogo, cuja conta na
rede social, por sua vez, vai além e insinua que a do rival estaria fazendo
apologia à violência. A do Vasco, cujas organizadas historicamente se unem com
os botafoguenses em brigas com os rubro-negros; entra na discussão virtual.
Bizarro!
E
segue. Vice flamenguista defende a postura do clube em seu perfil pessoal, e o
@Flamengo trata o assassinato de um alvinegro de forma desproporcional com um
“Lamentamos a morte do torcedor e os ocorridos no Engenhão…” Óbvio
que se trata de um problema de segurança pública refletido no futebol, mas isso
não justifica banalização e reações. Em meio ao caos, os clubes passaram o
domingo brigando.
Mas a
relação de certa conivência entre torcidas organizadas, mesmo quando exibem seu
lado mais agressivo, e a presença de clubes em redes sociais, é algo comum até.
O próprio perfil do Botafogo no Twitter destacou a Fúria Jovem, que reapareceu
recentemente nos jogos após suspensão, quando da partida com o Colo Colo pela
Libertadores, no Rio. A frase do tuíte integra uma música, um cântico que se
volta em sua letra a brigas com rivais de outras torcidas.

Tuitada do perfil do Botafogo quando da volta da Fúria Jovem aos jogos, diante do Colo Colo
Cartolas
de Flamengo e Botafogo vêm alimentando rivalidades tolas fora do campo. Quando
reforçam isso em declarações por redes sociais ou entrevistas, só atrapalham em
rasgos de amadorismo que beiram a irresponsabilidade. Falta a esses apaixonados
torcedores de arquibancada compreender a diferença da conversa de bar para o
momento no qual representam seus clubes. Eles agora são dirigentes. É
diferente.
Num
mundo ideal o Rio de Janeiro não estaria falido, os servidores receberiam em
dia, o Maracanã não teria sido estuprado e o ex-governador preso andaria pelas
ruas sendo cumprimentado pelos eleitores por uma ótima gestão. Também nesse
ambiente imaginário, os presidentes de Flamengo e Botafogo se reuniriam, dariam
um ponto final a essa briga tola que há tempos seus clubes alimentam. Pois com
ela todos perdem e só têm mais a perder.
PS:
uma semana antes, Pedro Scudi, 23 anos, integrante da pacífica barra do
Fluminense Bravo 52 foi espancado nas imediações do Maracanã quando voltava do
jogo com a Portuguesa, em Xerém. Passou por cirurgia na cabeça, gente com
camisas de todas as cores foi até o hospital doar sangue, mas segue internado.
Enquanto organizadas de Flamengo e Botafogo se matavam e dirigentes não se
entendiam, a Nação 12, a barra rubro-negra, exibia no Engenhão um trapo, uma
faixa dando apoio ao jovem tricolor que há oito dias luta pela vida.

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