Por quê é saudável que Vinícius Júnior permaneça no Flamengo.

Foto: Divulgação

FALANDO DE FLAMENGO: Por Gustavo de Almeida


conhecemos este filme: revelação do Flamengo se destaca na Copinha ou no
estadual de juniores, empresários anunciam que grandes clubes europeus estão de
olho, preços disparam – e o final para o jogador nem sempre é o mais feliz. A
maioria deles, de origem humilde, passa a lidar com números financeiros
totalmente fora de sua realidade. Surgem os carrões, os colares, a marra, a
cobertura de sites de celebridades, e, mais recentemente, o Instagram e o
Snapchat. O futebol? Se dilui um pouco e exige dos verdadeiros talentos – como
o caso do Vinícius Jr. – um empenho físico cada vez maior.
O
ex-zagueiro Mauro Galvão, em debate na Fox, foi certeiro: a preocupação maior
deve ser exatamente com a formação do caráter de Vinícius. O deslumbre, os
vídeos do Neymar (imagine um ídolo como Neymar falando com você aos 17 anos),
todo um contexto que o garoto passará a viver, um verdadeiro sonho com cartão
de crédito de limite altíssimo.
O que pode salvar Vinícius Jr, é
exatamente o Flamengo
Explico
nas linhas que se seguem.
Há um
dito que circula há uns anos nas redes sociais, sem autor identificado, segundo
o qual “tempos difíceis criam homens fortes; homens fortes criam tempos mais
fáceis; tempos mais fáceis criam homens molengas; homens molengas tornam os
tempos mais difíceis”. É uma espécie de espiral em torno do qual a História
parece girar. A coisa mais próxima disto com autor é uma frase do escritor
americano O.S. Marden, “fazemos o mundo em que vivemos e modelamos o nosso
próprio ambiente”. É possível que a frase-espiral tenha sido criada por um
leitor deste americano morto em 1924.
Voltemos,
não a 1924, mas aos anos imediatamente depois da geração Zico. Ora, podemos
considerar que o Flamengo de 1979 a 1992 viveu um apogeu sem paralelo na
história do esporte brasileiro – e muito disto se deveu a homens fortes: Zico,
Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Lico, Raul, Mozer, entre vários. Homens que
valorizavam o trabalho (treino) acima de tudo, homens que sabiam estar lutando
a batalha de suas vidas. Estes homens elevaram o Flamengo, no plano mundano, ao
patamar em que o Flamengo sempre esteve no plano etéreo: o patamar de maior
clube de todos os tempos.
Em
cima deste patamar, surgiu uma outra geração, também muito talentosa. Os
Gaúcho’s Boys (invenção bem-humorada do saudoso Luis Carlos Tóffoli – que não
era parente, de forma alguma, do ministro do STF) comemoravam gols fazendo
trenzinhos, apareciam em eventos não-esportivos, começaram a investir em
carrões e roupas de grife. Tempos mais fáceis. Eles tinham, sem dúvida, o
talento, e o Flamengo já estava no patamar máximo da realidade. Restava a eles
criar a Marra, este ingrediente que acabou se perpetuando por alguns anos no
clube. Jogadores que não tinham um décimo do talento dos Gaúcho’s Boys passaram
a andar com celular top de linha numa mão, colar de ouro e carros importados.
Tempos cada vez mais fáceis. E homens cada vez menos eficientes.
Tempos
que incluíram de tudo: farras, brigas internas, dívidas se acumulando, locais
precários de treinamento, bagunça generalizada, jogadores aos montes sendo
contratados, seis técnicos a cada temporada. Tempos difíceis – mas para nós,
torcedores. Naqueles tempos de gestão temerária e sem direção, empresários e
pais de jogadores faziam de tudo na Gávea, mandavam e desmandavam. Jogadores
que tinham entrado em campo duas vezes pelo Flamengo e recebido duas notas sete
no Globo viravam “novos Zicos”. E tome celular, óculos escuros, carros novos.
Só que
hoje, ao que parece, temos exemplos mais pé-no-chão. E uso como paradigma o
meio-campo Diego. Observe suas entrevistas, sua postura, analise o teor de suas
declarações. Sim, pode ser tudo ensaiado, mas é BEM ensaiado, bem estudado.
Diego mostra REVERÊNCIA AO FLAMENGO, em vez de reverência ao celular e ao
carro. Diego treina, trabalha, se esforça, procura manter a forma. Os jogadores
aparecem, sim, em eventos. Todos juntos.
Este
mindset que vem se estabelecendo entre os jogadores do Flamengo pode ser a
salvação para Vinícius Jr. Ele pode aprender que o trabalho é o único caminho,
que todo esse deslumbre pode ser curtido melhor com moderação até os 34 anos e
do jeito que ele quiser depois disso (caso ele opte por parar). O exemplo de um
Diego, consagrado em outros clubes mas reverente ao Flamengo, é a melhor
história a ser contada a Vinícius Jr. Quando aos vídeos que o Neymar enviar,
sugiro ao Flamengo fazer uma resposta. Com o Diego pedindo ao amigo que
sossegue o facho, porque aqui é Flamengo.
Depois
de dois anos no Flamengo, seguramente Vinícius Jr. partirá para uma carreira de
ouro no futebol europeu e conseguirá sua independência financeira e de seus
familiares. Não há nada de errado nisso – o futebol de hoje tem como fonte de
custeio exatamente a venda de jogadores. Uma gestão que tem colocado o clube de
volta aos trilhos precisa, sim, fazer boas vendas, sem precipitações.
E no
mais, um Vinícius Jr. campeão mundial tem muito mais valor, concordam?

Por: FlaHoje

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