quinta-feira, outubro 1, 2020
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Qual o perfil de treinador para o Flamengo?

Foto: Divulgação

BUTECO
DO FLAMENGO
: Saudações flamengas a todos,

A
incerteza acerca da permanência de Muricy Ramalho no comando técnico da equipe
(talvez já dirimida após a publicação deste texto) fez crescer um debate sobre
o que se quer para dirigir o Flamengo no futuro. Mais do que nomes, começa-se a
discutir perfis, o que julgo positivo.
Um
perfil mais inovador ou conservador? Um medalhão ou um jovem talentoso? Um “da
casa”, que “conhece o clube”, ou alguém com currículo fora?
Com
base nisso, proponho trazer elementos de discussão, com base no relato de
passagens marcantes de treinadores na história recente do Flamengo. Esta
semana, treinadores “de dentro” ou com pouca experiência anterior. Que deram
certo, ou não. A lista não é exaustiva, há outros exemplos, mas não houve
espaço para listar todos.
Semana
que vem, os “de fora”. Boa leitura e discussão.
* * *
QUANDO DÁ CERTO
CLÁUDIO COUTINHO (1976-1980, com
interrupções)
Gaúcho,
de origem militar, radicado no Rio de Janeiro, construiu carreira na comissão
técnica da Seleção Brasileira, atuando como preparador físico e posteriormente
auxiliar técnico nas Copas de 1970 e 1974. Assumiu o Flamengo por indicação da
CBD, que desejava “dar cancha” a um provável candidato ao posto de treinador.
Recebido inicialmente com desconfiança pelo elenco, soube cativar os jogadores
com um perfil democrático e de diálogo, embora firme.
Estudioso,
entusiasta e adepto das práticas mais modernas de fisiologia do desporto e
preparação tática, possuía um perfil absolutamente distinto dos treinadores
“paizões” e “boleirões” da época. O respaldo da CBD (lembrando que o país vivia
um regime militar) foi importante para absorver os maus resultados iniciais. No
entanto, ao ser indicado para dirigir a Seleção Brasileira para a preparação e
disputa da Copa de 1978, trouxe um problema ao Flamengo, pois seu trabalho no
clube sofreu interrupções. Apenas a partir do final de 1978, quando pôde se
dedicar mais intensamente ao Flamengo, conseguiu imprimir mais rapidamente sua
filosofia de trabalho, colhendo resultados relevantes.
No
clube, soube integrar jovens valores a veteranos tidos como decadentes.
Implantou um esquema de jogo atualizado, repleto de triangulações e
movimentação em bloco. Introduziu a polivalência, com figuras como o “falso
ponta” e o “falso nove”. Seu calcanhar de aquiles foi o sistema defensivo,
problema que só conseguiu minimizar com a contratação do zagueiro Marinho e a
volta do jovem Andrade. Conquistou um Tri Estadual e um Brasileiro.
Após o
título nacional, não conseguiu manter o grupo motivado e, desgastado por
atritos com o elenco, demitiu-se no início de 1981. Atribui-se a Coutinho o
embrião do time que marcaria o que se convencionou chamar “Era Zico”.
PAULO CÉSAR CARPEGIANI (1981-1983)
Aposentou-se
como jogador em maio de 81. Em julho, após passagem relâmpago como auxiliar de
Dino Sani, assumiu o comando da equipe, após a recusa de Nelsinho Rosa (campeão
estadual de 1980 pelo Fluminense, onde ainda estava empregado). Jogador de
forte ascendência sobre o time, de quem era o capitão, sofreu com alguma
desconfiança no início (cinco empates em seis jogos), mas a classificação às
Semifinais da Libertadores lhe deu respaldo para seguir.
Seu
mérito consistiu em retomar e aprimorar a metodologia de Coutinho, que havia
sido deixada de lado pelo old-school Dino Sani. Encaixou o sistema defensivo
com a ascensão de Mozer e Vítor (espécie de 12º titular) e com a efetivação de
Lico, formando um time com dois “falsos-pontas”, algo sem similar no futebol do
país na época. Conduziu com competência o processo que levou a equipe ao auge
de sua performance, ganhando absolutamente tudo entre 1981 e 1982.
Seguiu
a sistemática de dar chances a jovens valores, embora fosse adepto de uma
utilização mais restrita do elenco (trabalhava com cerca de 13 a 14 jogadores,
que eram mais usados nos jogos).
Também
sofreu com o desgaste na relação com o elenco, não resistindo às perdas do
Estadual e da Libertadores em 1982. Sua manutenção para o ano seguinte
revelou-se um erro, que acabaria deflagrando uma séria crise, a custo debelada.
SEBASTIÃO LAZARONI (1985-1987)
Preparador
físico de origem, ascendeu à condição de auxiliar técnico, posto que ocupava
quando Joubert Meira foi demitido, após o fracasso na Taça GB de 1985. Indicado
para comandar o time em uma excursão aos EUA, retornou com bons resultados e
uma avaliação positiva da supervisão. Enquanto o clube procurava medalhões como
Menotti e quetais, foi mantido para a estreia da Taça Rio, em que o Flamengo,
desfalcado e desfigurado, arrancou um heroico empate contra o favorito Bangu,
vice brasileiro (2-2). A atuação vibrante e aguerrida da equipe resultou em sua
efetivação.
Lazaroni
soube lidar com a necessidade de fazer a transição entre a geração da Era Zico,
que, por problemas de lesão ou queda de rendimento, já não conseguia manter
sequência, e uma ampla fornada de jovens de qualidade prontos para subir.
Promoveu, ou efetivou, nomes como Aldair, Zé Carlos, Zé Carlos II, Guto,
Valtinho, Ailton, Zinho, Vinicius, entre outros. Conquistou um Estadual.
Também
era defensor da adoção de uma forma de jogo mais competitiva e veloz, mantendo
o time atrás da linha da bola e saindo em velocidade em contragolpes
fulminantes. Suas equipes transpiravam e jamais se rendiam em campo. Gostava de
improvisar posições, herdando a “polivalência” de Coutinho. No entanto, padecia
de certa falta de flexibilidade na forma de jogo.
Paradoxalmente,
desgastou-se à medida que os melhores jogadores foram começando a reunir
condições de jogo. Recusando-se a montar um time mais cadenciado e técnico,
comprou briga com Adílio e Sócrates, acreditando ter força para confrontar o
vestiário. Não foi o caso.
CARLINHOS (1987-1988, 1991-1993,
1999-2000)
Estão
aqui listadas as três melhores passagens.
Cria
da Gávea, onde fez carreira como jogador e como treinador, inicialmente
trabalhando nas divisões de base, depois içado ao posto de auxiliar. Após
passagem ruim em 1983, foi elogiado ao comandar o time como interino na Taça GB
em 1987, entregando-o invicto a Antonio Lopes. Com o fracasso do “delegado”,
tornou a ganhar chance de forma provisória no Brasileiro, mas os bons
resultados contra Vasco (2-1) e Santos (0-0, fora de casa, jogando com 10 e
melhor), aliados à dificuldade de contratação de um nome de ponta, o mantiveram
no comando.
Em
1991, Carlinhos, como auxiliar, também herdou, de forma provisória, o comando
da equipe, após a turbulenta passagem de Vanderlei Luxemburgo. E, em 1999, foi
contratado para comandar um elenco ansioso por um “resgate” da identidade
rubro-negra, tida como perdida nos anos de administração Kléber Leite.
Em
síntese, Carlinhos caracterizou-se por uma visão intuitiva aguçada. Seu posto
de auxiliar lhe permitiu observar atentamente o funcionamento das equipes e, ao
ser promovido, realizar mudanças simples, pontuais, mas decisivas e capazes de
alterar dramaticamente o seu funcionamento. Versátil, conseguiu trabalhar com
elencos jovens, promovendo valores da base (especialmente em 1991 e 1999), e
com grupos mais qualificados (1987). A exemplo de outros profissionais bem
sucedidos, fez do diálogo e da abertura aos líderes do elenco sua marca. Com
isso, tornou-se um dos mais vitoriosos treinadores da história do clube (dois
Brasileiros, uma Mercosul, três Estaduais, entre outras conquistas).
No
entanto, tinha dificuldades em momentos de turbulência. O perfil conciliador e
de diálogo não se mostrou adequado para resolver conflitos. Nas três passagens
citadas, perdeu o vestiário de forma inapelável, em decorrência de maus
resultados em sequência.
ANDRADE (2009-2010)
Figura
de controversas passagens anteriores, seguiu como auxiliar fixo de diversos
treinadores, acompanhando alguns dos momentos mais difíceis da história do
clube. Em 2009, após a demissão de Cuca, recebeu a incumbência de dirigir, em
caráter interino, o time em duas partidas teoricamente difíceis (Santos F,
Atlético-MG C). Venceu e convenceu em ambas, o que motivou sua efetivação.
Intuitivo,
soube domar um elenco difícil, com jogadores de temperamento complicado.
Capitalizou a motivação de atletas como Petkovic e Adriano, canalizando-as para
dentro de campo. Montou um esquema simples, de fácil execução, e soube fazer o
elenco comprar a briga de um título brasileiro que parecia improvável. O hexa
veio, de forma histórica. Com ele, os problemas.
O
elenco campeão de 2009 perdeu peças importantes, e Andrade não soube trabalhar
com as peças de reposição. Também não conseguiu manter o elenco motivado e
focado para a Libertadores, quase sendo eliminado precocemente na Primeira
Fase. Sem comando, conviveu com episódios de indisciplina que beiraram o
confrontamento direto. A perda do Estadual para o Botafogo foi-lhe fatal, e
encerrou sua trajetória no clube.
QUANDO DÁ ERRADO
CARLINHOS (1983)
O
Flamengo estava imerso em forte crise, jogadores desmotivados, arrastando-se em
campo, jogando sob pesadas vaias. Carpegiani, visivelmente desgastado, foi
demitido. Carlinhos, sem qualquer experiência no profissional, assumiu com a
intenção de devolver uma vibração há muito perdida. Conseguiu apenas no
primeiro jogo, um empate com o Palmeiras no Maracanã (1-1, em que o time perdeu
inúmeras chances e cedeu a igualdade em lance isolado). Após algumas decisões
confusas, como a barração de titulares importantes, perdeu o cargo nas desastrosas
partidas do Flamengo na Bolívia pela Libertadores (0-0 Blooming e 1-3 Bolívar),
que custaram a vaga à fase seguinte. Carlinhos, tido como muito “verde”, ainda
teria que aguardar alguns anos.
JOSÉ ROBERTO FRANCALACCI (1983)
O
Flamengo sangrava a saída de Zico. Uma aura de desânimo pairava sobre toda a
instituição. Perdidos, os jogadores se ressentiam da falta de um líder (Raul,
quase aposentado, não queria exercer esse papel e Júnior, ainda imaturo, não
estava pronto). O treinador, Carlos Alberto Torres, somente bradava “raça,
raça” pelos cantos. Foi demitido. Assumiu o preparador Francalacci, numa
tentativa de repetir o sucesso de Coutinho. Mas o timing foi desastroso.
Francalacci tentou inovar e aplicar sistemas de jogo requintados e complexos. Testou
Leandro e Júnior na posição de Zico. Apenas trouxe mais confusão e
desequilíbrio a um cenário devastado. Após algumas derrotas contundentes, foi
devolvido à comissão técnica.
SEBASTIÃO ROCHA (1997)
Assumiu
o time após a saída de Júnior, desgastado com a derrota para um time reserva do
Botafogo na Taça GB. “Paizão”, “carinhoso”, inicialmente trouxe boas respostas,
mostrando capacidade de trabalhar com um elenco jovem e de conciliar as
necessidades da equipe ao temperamento de Romário. Conseguiu formar um time
compacto e veloz, que foi avançando às fases finais da Copa do Brasil. No
entanto, a hesitação mostrada na partida decisiva contra o Grêmio foi-lhe
fatal. Demonstrando abatimento com as críticas, sucumbiu ao mau início do time
no Brasileiro, quando chegou a beirar a ameaça de rebaixamento. Sua despedida,
aos prantos, na goleada sobre o Atlético-MG (4-2 no Mineirão), revestiu-se de
uma página particularmente constrangedora.
JÚLIO CÉSAR LEAL (2005)
Formado
na Gávea, com experiência em Seleções Brasileiras de base e no Oriente Médio,
enfim se julgou capaz de conduzir o time principal, especialmente diante de um
elenco barato, onde seria necessário promover alguns jovens da base. No
entanto, mostrou-se alheio e algo deslumbrado, parecendo desconectado da crise
que assolava o clube. Em um elenco abatido pela péssima temporada anterior, com
alguns reforços inexpressivos e torrados mesmo antes da apresentação, acenou
com uma esdrúxula “cartilha” de conduta (onde figuravam “instruções”, como
“bater faltas à la Zico”) e outras excentricidades, como o pedido de uniformes
azuis de treino à fornecedora de material esportivo (“azul é a cor dos
vencedores”). Não foi difícil prever o desfecho. Após uma humilhante estreia na
Taça GB (0-3 Olaria no Maracanã, única vitória do adversário no campeonato),
resistiu apenas por 6 jogos, sendo sumariamente demitido. Sua contratação, até
hoje, é dolorosamente lembrada como um retumbante erro de avaliação.
ANDRADE (2005)
O
momento caótico do Flamengo, afundado na Zona de Rebaixamento e com um dos mais
deploráveis elencos de jogadores da sua história, requeria ações rápidas,
enérgicas. Perdidos e sem dinheiro, os dirigentes não pareciam reunir muitas
opções de ação. Optou-se pela efetivação de Andrade, que com um trabalho
razoável no final do ano anterior havia salvo o time do descenso.
O
início não foi ruim, dentro das circunstâncias. Andrade, com uma tática
simples, “fechou a casinha” e tentou montar um time veloz e compacto. Conseguiu
alguns resultados importantes e improváveis (0-0 contra os fortes Cruzeiro e
Santos, ambos fora de casa, 2-0 sobre o São Caetano, entre outros). Mas,
incapaz de conter uma forte guerra de egos e um elenco fragmentado em
subgrupos, rapidamente sucumbiu à crise que parecia interminável. Após alguns
resultados humilhantes, deixou o comando do Flamengo com a equipe na lanterna e
com mais de 90% de chances de rebaixamento.
ROGÉRIO LOURENÇO (2010)
Assumiu
o clube na esteira da perda do Estadual e de uma classificação quase
inacreditável para a Segunda Fase da Libertadores. Conseguiu desfrutar do
último sopro de motivação dos jogadores do hexa, o que foi suficiente para
eliminar o Corinthians em duas partidas duríssimas. Poderia ter ido mais longe
na competição continental, mas foi prejudicado por um erro primário de
logística na partida de ida das Quartas de Final, contra a Universidad-CHI, que
não foi revertido nem mesmo pela primorosa atuação da equipe no Chile.
Sua
forma de jogo era simples, trazendo elementos da “tropa de elite” de Joel,
montando um cinturão de zagueiros e volantes que trancavam a defesa e faziam o
time jogar em função do talento de Adriano e Wagner Love. Com a eliminação da
Libertadores e a saída dos dois atacantes, perdeu a referência ofensiva e não
resistiu à aridez técnica do elenco remanescente. Seu temperamento difícil
também não ajudou. Deixou o comando após o mau início no Brasileiro.
Por Adriano
Melo

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