“Quando quitar as dívidas, o Flamengo vai ganhar tudo”, diz Petraglia

Mário Celso Petraglia, Presidente do Atlético-PR – Foto: Guilherme Prado

FOLHA
DE SÃO PAULO
: Mário Celso Petraglia, 73, representa a principal força política
do Atlético-PR, que nesta quarta (5), às 19h15, enfrenta o Santos no jogo de
ida das oitavas de final da Libertadores, em Curitiba. Há 21 anos no clube, ele
é categórico ao afirmar que o futebol brasileiro “está um lixo” e que
falta “coragem aos dirigentes para mudar isso”.

Sem
papas na língua, o atual presidente do Conselho Deliberativo do Atlético-PR
afirma que a salvação é a criação de uma liga de clubes.
Com
declarações polêmicas, Petraglia colecionou inimigos e desafetos, mas também a
idolatria de atleticanos, cartolas e torcedores.
Em
1997, o dirigente apareceu em escutas em suposto esquema de venda de
resultados. Uma gravação mostrava Ivens Mendes, que presidia a Conaf (Comissão
Nacional de Arbitragem de Futebol), pedindo uma quantia em dinheiro para
favorecer o clube paranaense em jogo contra o Vasco nas oitavas de final da
Copa do Brasil. Petraglia disse na época que foi coagido por Mendes. O caso foi
arquivado.
Folha – Como analisa o futebol brasileiro
atualmente?
Petraglia
– Está um lixo. Nosso campeonato está nivelado por baixo. A nota do nosso
futebol é 3. Nós [Atlético-PR] também estamos dentro desse contexto. São muitos
jogos consecutivos, o que atrapalha o rendimento. Estamos aí disputando
Libertadores, Copa do Brasil e Série A. Jogamos de três em três dias.
E qual é a solução para isso?
A
formação de uma liga é a única solução. O país poderia ter a segunda liga
nacional mais bem sucedida do mundo, só perdendo da inglesa. Nosso PIB (Produto
Interno Bruto) é maior ou igual ao da Inglaterra [na verdade, segundo dados do
Banco Mundial, o PIB do Brasil em 2016 foi 31% menor que o do Reno Unido]. É só
copiar. Você acha que perderíamos para o Espanhol ou para a liga alemã?
O problema é que os dirigentes brasileiros
não são unidos. Levam para as reuniões seu próprio interesse e a rivalidade.
São torcedores. Não temos união e objetivos definidos.

Os
clubes estão perdendo a chance de serem autossuficientes há muitos anos. Eu
vejo muitos dirigentes que têm ideia parecida, mas falta coragem. Têm medo de
serem prejudicados pela arbitragem e pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça
Desportiva).
O senhor não tem medo?
Eu
tenho medo, mas eu domino o meu medo. Não deixo o medo me dominar. Vou para o
enfrentamento.
O Atlético-PR é um dos fundadores da
Primeira Liga. Por que o clube desistiu de disputar a competição neste ano?
Os
objetivos da Primeira Liga foram deformados, deturpados, violentados. Era para
criar um produto novo, valorizado, com os principais clubes brasileiros do Rio,
Curitiba e Minas Gerais, e diminuir os Estaduais, que estão falidos,
liquidados. Mas a força da CBF em relação ao calendário e da Globo nos liquidou
e os clubes se renderam. A Globo tem interesse em quatro estaduais apenas: Rio
de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O resto é o resto.
Os Estaduais deveriam acabar?
Tem
que mudar o modelo. Tem que ver uma forma de financiar os Estaduais para que
eles sejam disputados o ano inteiro e por times sub-23. Não adianta ter 18
datas dentro do Estado. Os clubes montam os times nos primeiros meses e depois
desmontam.
O que achou do resultado da transmissão do
clássico contra o Coritiba pelo YouTube?
Esse é
o caminho. Teria repercussão muito melhor se tivesse sido realizado no domingo,
quando a federação nos boicotou e não deixou fazer o jogo. Foi sacanagem pura
da Globo e da federação.
Depois
quando fizemos no domingo concorreu com as finais de campeonato na transmissão
aberta. Mesmo assim, os índices foram altíssimos. No primeiro jogo, foram 2,3
milhões de visualizações e no segundo 1,6 milhão.
O senhor critica a Globo…
O
problema é que fomos dominados nesses 30 anos pelo monopólio da Globo e o
cartel da CBF e das federações. Eles olham o interesse deles e não o dos
filiados. Para que precisamos de federações como a paranaense, que cobra 10% da
nossa receita? Estamos sendo explorados por esse sistema e isso precisa ser
mudado. A CBF tem que cuidar da seleção e da base.
Acha que o presidente da CBF, Marco Polo
Del Nero, deveria sair por causa das acusações de corrupção contra ele?
Existe
a presunção da inocência. Agora, existe uma investigação nos EUA. Ele deveria
sair até que se prove se é inocente ou não. A CBF está preocupadíssima para
saber como vai retomar seus patrocinadores. Eu falei que só tem uma forma, que
é credibilidade. Tem que sair para a rua e vender credibilidade. Como um cara
que não pode sair do país vai vender credibilidade? Qual empresa que quer
investir no futebol hoje? A maioria dos clubes está sem patrocinador. Se a Caixa
sair, acabou.
Como vê a distribuição das cotas de
televisão no futebol brasileiro?
O
Atlético-PR recebe aproximadamente R$ 50 milhões. O Flamengo tem R$ 170 milhões
para disputar a mesma competição. No pay-per-view a distribuição é como eles
querem. O Flamengo recebe R$ 3,2 milhões por partida e o Atlético-PR R$ 150
mil. Os clubes brasileiros não pensam no todo. Cada um olha o seu lado. Pensa
em aumentar a sua fatia. Quanto maior for a fatia do Flamengo e menor a dos
outros times, a possibilidade deles ganharem é maior. O Flamengo está pagando
contas de erros do passado. Quando quitar as dívidas, vai ganhar tudo. O
Corinthians menos, por conta do pepino do estádio. Na Europa, os clubes ainda
têm um aditivo de 25% a 30% de acordo com a performance. Aqui, a diferença na
cota de televisão é de um para vinte.
O Atlético-PR tem o projeto de disputar o
Mundial até 2024. Como é esse projeto?
Fomos
campeões do Brasileiro em 2001, vice-campeão da Libertadores em 2005, com menos
de dez anos de projeto. Alcançamos resultado no futebol porque os outros são
muito ruins. Foi muito mais incompetência dos outros do que nossa.
Por
conta da crise moral, ética, econômica que atinge o Brasil há anos, não
vendemos nada do nosso estádio. Desde setembro de 2014, quando a Fifa devolveu
o estádio, estamos investindo, arrumando o estádio. Tivemos R$ 150 milhões de
superavit nos últimos três anos. Foi tudo no estádio. Agora, terminado o
investimento patrimonial, isso aqui vai para o futebol automaticamente. Com
toda essa estrutura, todo esse trabalho, toda a tecnologia, um clube sem
dívida, é para ser campeão brasileiro e brigar pelo título do Mundial de
Clubes.
O que acha das torcidas organizadas e qual
a relação do Atlético-PR com elas?
Tem
que ser controlada. Se não existisse seria melhor. Nossa relação com a nossa
torcida organizada é boa. Fizemos um acordo de interesse. No local que
destinamos para a torcida organizada só entra sócio. Não vendemos ingressos
para aquele local. Nunca financiei e nem dei nada para eles. Só em 1995, quando
eles tinham uma sede dentro do estádio e financiei uma para eles.

Por: FlaHoje

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