terça-feira, setembro 29, 2020
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Que se deixe Diego jogar como Diego.

Foto: Divulgação

BUTECO
DO FLAMENGO
: Saudações flamengas a todos,

1991. Maracanã. 110 mil.
Flamengo e Botafogo decidem, num domingo incrivelmente chuvoso e ensolarado, a
Taça Rio. O clima feérico parece prever as alucinantes reviravoltas que estão
por vir no campo. O Flamengo, mais aguerrido e competitivo, entra pressionando,
acua o adversário e com 17 minutos já vence por 2-0, gols de Gaúcho (numa
belíssima cabeçada) e Zinho (num frango de cinema de Ricardo Cruz). O Flamengo
deixa o adversário grogue e roda a bola, para delírio da maioria rubro-negra no
estádio. Cria chances, mas não mata o jogo. Isso será fatal mais tarde.
Segunda
etapa. O treinador botafogo, Ernesto Paulo, substitui o tímido lateral Paulo Roberto
pelo agressivo Odemílson. E “queima os navios” ao trocar o volante Djair pelo
irrequieto atacante Vivinho. As alterações incendeiam a partida, e o Botafogo
vem pra cima. Diminui com Carlos Alberto Dias já aos 9′, e começa a pressionar.
Mas, aos poucos, o Flamengo vai, ao menos, mantendo o Botafogo distante de sua
área, tentando reter a bola. A partida se torna nervosa. Esgotado, o Botafogo
parece no limite das forças, arrefece a pressão e aos 30′ a massa flamenga
começa a pressentir a vitória, cantando a plenos pulmões. Carlinhos, buscando
dar mais combatividade ao meio-campo, tira o cansado Maestro Júnior e coloca o
volante Zé Ricardo. Será seu erro.
A
perda da referência, do comando, da liderança, da qualidade e do toque de bola
do Flamengo mostra-se devastadora. O Botafogo se inflama e avança todas as suas
peças. Ao rubro-negro restam as bicudas e o bumba meu boi. Começa a saraivada.
Bola na trave, defesa de Gilmar, o diabo. Ninguém respira. Passamos dos 40′. O
empate não sai, embora o jogo se concentre nos arredores da área flamenga. Até
que Júnior Baiano, talvez tentando emular Domingos, talvez se esquecendo de que
não está em uma pelada no chão batido de Feira de Santana, resolve sair
driblando em sua pequena área. Perde a bola e daí sai o empate, novamente com
Dias. O lado direito do Maracanã explode, o Flamengo sai “derrotado”, Júnior
reclama de ter saído e o clima não parece nada bom para o jogo-extra da
quinta-feira. Mas o Flamengo conseguirá reverter a expectativa negativa e
levará a melhor no duelo seguinte, conquistando a taça.
2009. Estádio Comendador
Souza, Barra Funda, São Paulo-SP. Flamengo e Bahia se enfrentam pela Quarta
Fase da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Apesar do caráter teoricamente
eliminatório da partida, o Flamengo já entra em campo classificado, por conta
de peculiaridades do regulamento e de sua boa campanha na Primeira Fase. No
entanto, o rubro-negro encara a partida com seriedade e como um teste
importante, uma vez que o Bahia é o primeiro adversário de certa expressão que
enfrenta no torneio.
O
Flamengo, solto, começa bem, envolvendo o adversário. Logo consegue um pênalti,
que Cafu desperdiça. Mas segue criando chances em abundância e, em uma jogada
de Paquetá, chega ao primeiro gol, com Felipe Vizeu. Pouco depois, o mesmo
Vizeu amplia para 2-0, após cruzamento do lateral Thiago Ennes. Ainda antes do
final da primeira etapa, o Flamengo quase amplia, e as equipes vão para o
intervalo após ampla e cristalina vantagem rubro-negra.
Na
segunda etapa, o Bahia, precisando ao menos levar o jogo para os pênaltis para
sonhar com uma vaga extra, avança completamente suas linhas. O Flamengo,
aparentemente acomodado, tenta cozinhar em banho-maria, circulando a bola, mas
perde o controle da partida. As alterações, especialmente a saída do
meia-atacante Matheus Sávio, não ajudam, e o Bahia agora exerce uma pressão
quase insuportável. Manda bola na trave, marca um gol, que é anulado. O goleiro
flamengo Thiago vai tendo muito trabalho, mas o tempo vai passando e sua meta
não é vazada. O Bahia parece cansado, já cede espaço para os contragolpes
flamengos. Mas, aos 38′, enfim os baianos conseguem diminuir, o que acende a sua
torcida presente no pequeno estádio. O Flamengo mal dá a saída de bola, e num
passe errado cede o empate ao adversário, um minuto depois. Antes dos 40′, o
jogo já está empatado, tornando-se sensacional. Segue-se uma troca de golpes e
chances perdidas (o Flamengo se enche de brios e sai da trincheira, mas agora é
tarde). Entretanto o jogo termina mesmo nos 2-2, indo para os pênaltis. Mais
inteiro fisicamente, o Flamengo é mais eficiente e derrota o adversário,
seguindo invicto no torneio que acabará vencendo.
* * *
A
narrativa resumida das duas partidas acima merece alguma reflexão.
É bem
verdade que o empate-derrota no tablado da Ilha do Governador, sábado passado,
contra um adversário que pouco mais tinha a oferecer do que correria e rancor,
frustrou e irritou nossa torcida, que tinha como certos os três pontos após
Paolo Guerrero, novamente marcando gol em um clássico, ter anotado o terceiro
gol flamengo. Daí, as reações espalharam-se em impropérios contra jogadores,
diretoria, treinador e outros atores menos cotados. Normal.
Flamengo
e Botafogo têm por característica realizarem jogos movimentados, corridos e
usualmente cheios de alternativas. A equipe que está atrás no marcador
dificilmente desiste da partida, pois não aceita, não admite ser subjugada pelo
adversário. Donde, não é raro marcadores serem revertidos, empates heróicos
buscados, derrotas já contadas virarem empates, vitórias escoarem pelos dedos.
Além do exemplo citado, qual flamengo não lastimou os 3-3 na Taça Rio de 1989
(em que Gonçalves “ressuscitou um morto”)? Ou não ficou apreensivo com os 2-2
na Final do Estadual de 2009, que quase custaram o tri? Por outro lado, quem
não comemorou o milagroso empate arrancado na primeira final do Estadual de
2007? Ou o gol do Imperador no lance final de um jogo em 2010? Ou o gol de Zé
Roberto quando o comentarista, nos descontos, falava da justiça da “vitória
alvinegra”? Ou os emocionantes 4-4 de um jogo pelo Rio-São Paulo de 1999,
arrancados quando o adversário já cantava goleada?
São
peculiaridades de um jogo de alta rivalidade, em que qualquer descuido se torna
mortal.
Invocou-se
a “frouxidão” da equipe, ainda no rescaldo do pavoroso perfil anímico
demonstrado pelo elenco flamengo de 2015, do qual ainda remanescem vários
elementos, cuja presença no time traz um misto de indignação e impotência de um
torcedor ansioso por ver em campo uma formação aguerrida, combativa, briosa e
vencedora.
No
entanto, embora admita que o Flamengo de 2016 ainda não faz correr em suas
entranhas a flamejante e ardente seiva na qual se encharcou forjando sua
personalidade de protagonista, e em vários momentos tenha trespassado uma
postura apática, gélida, inerte e indiferente aos apupos e apelos de sua gente,
não reputo a este senão o revés de sábado passado, em que pese o comportamento
da equipe nos primeiros 45 minutos, deixando-se intimidar por um “américa” em
negro e branco, tenha mesmo sido inaceitável.
Mas
entendo que a questão ali foi estratégica e talvez tática. E aí entramos no
segundo exemplo deste texto.
O
Flamengo do Zé Ricardo já demonstrou, em várias partidas deste Campeonato
Brasileiro, e mesmo em alguns momentos da Copa São Paulo que, dispondo da
vantagem sob o braço, prefere entregar a bola ao adversário e tocaiá-lo em sua
intermediária, buscando estocá-lo em contragolpes, assim matando o jogo. É uma
estratégia válida quando se tem uma defesa intransponível e um meio-campo capaz
de picotar o jogo, truncar e travar as ações do adversário ainda na origem, no
terreno da linha central. Quando se cede espaços em excesso, permitindo que o
oponente troque passes e busque a criação já na zona intermediária defensiva,
ou mesmo, em casos extremos (como na partida contra o Atlético-MG e no início
do jogo contra o Internacional), já nas franjas da grande área, o risco de uma
falha, um bote errado, uma falta inconveniente se torna altíssimo, e não é raro
haver o castigo numa das diversas bolas que ficam por ali pererecando perto do
gol. Foi o caso sábado, poderia ter acontecido em Recife, ou mesmo domingo
passado, em Brasília.
O
Flamengo do Zé Ricardo já demonstrou capacidade de reação em outros momentos. É
um time que está começando a aprender a jogar em desvantagem. Não é raro
empatar ou mesmo virar jogos em que sai atrás do marcador, algo que até pouco
tempo atrás soava impensável. Não é mais aquela equipe que basta ser atacada
para que sofra um gol. Claro, ainda oscila durante alguns jogos, especialmente
pela falta de jogadores de ponta, do “chefe” a quem os coadjuvantes recorrem
para contornar dificuldades. O cara que acalma e estabiliza.
Poderia
ser Diego esse cara? Ou Donatti?
O
tempo dirá. Donatti é o típico “xerifão”, o zagueiro-zagueiro, o jogador dado a
bicudas, esporros e mesmo àquela porrada marota, pra intimidar. É possível que
o Flamengo ganhe casca e caráter com sua presença em campo, embora Réver e Juan
também possam, cada um dentro de seu estilo, exercer certa ascendência sobre o
grupo. Até porque, antes de mais nada, é preciso saber se o grandalhão
argentino será capaz de entregar respostas técnicas que o capacitem a integrar
a equipe titular. Um complicador é o excepcional rendimento alcançado pela
dupla Réver-Vaz e o bom aproveitamento de Juan no primeiro semestre, o que o
habilita a disputar uma das vagas na zaga titular.
Quanto
a Diego, que vem para ser o Camisa 10 de fato (embora traje outro número): que
o Flamengo não cometa com o excepcional jogador o erro de avaliação na
abordagem a Paolo Guerrero. Que não exija de seu contratado aquilo que está
acima de suas possibilidades. Que o deixe livre, à vontade, buscando se
divertir em campo. Naturalmente, que deixe claro o que espera em termos de
resultados coletivos, de patamar a ser alcançado, e qual a função de Diego,
como jogador de alto nível, grande capacidade técnica e experimentado em
centros mais avançados, nesse contexto. Protagonista em um clube protagonista.
Mas
que não se busque um messias, um semideus, um Zico. Que se deixe Diego jogar
como Diego. Que ele resolva dentro do campo. Não fora.
Assim
sendo, iremos longe.
Muito
longe.
Adriano
Melo

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