sábado, setembro 19, 2020
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Razões pelas quais o Carioca foi parar na UTI.

Foto: Fox Sports

BLOG TEORIA DOS JOGOS: Textos, análises e colunas elencando as razões da falência do
Estadual do Rio se tornaram tão abundantes quanto oxigênio. Mais ainda num ano
em que a Taça Rio se tornou inacreditavelmente amistosa, com grandes duelando
em confrontos esvaziados e sem qualquer sentido – já que as semifinais estavam
previamente determinadas. No entanto, ainda que sejam maioria, nem todos os
motivos da bancarrota são tão óbvios quanto parecem. Tentando ir além,
fugiremos do senso comum e indicaremos a viabilidade da adoção de medidas que
tentassem reverter os sintomas, tirando o paciente chamado Campeonato Carioca
de sua experiência de quase-morte.

1- Fórmulas esdrúxulas
Apesar
de já existirem muitos defeitos, até 2007 o regulamento do Carioca era um dos
únicos itens presentes em sua pauta de exportações. Tanto o Campeonato Mineiro
quanto o Gaúcho, cada um a seu tempo, chegaram a copiar a fórmula que apregoava
“doze times, dois grupos, todos contra todos dentro (Taça Guanabara – 1º turno)
e fora (Taça Rio – 2º turno) de seus grupos. Campeões dos dois turnos fazem a
final. Quem ganhar os dois é campeão direto”.
Preocupada
porque dois campeonatos se encerraram sem finalíssima em curto período (2011 e
2013), a Federação de Futebol do Estado do Rio (FERJ) mudou as regras no ano de
2014, passando a funcionar na base do grupo único, todos contra todos, 15
rodadas. A partir de então, a Taça Rio começou a não valer nada, sendo disputada
apenas pelos times pequenos do estado. Este torneio foi o embrião das inúmeras
mudanças que viriam a seguir, culminando na edição de pior fórmula em todos os
tempos: a atual.
Viabilidade
de se proceder mudanças: Alta. Basta querer (e votar em Arbitral) para que os
moldes presentes até 2013 retornem.
2- Excesso de times
Importante
notar que o número de equipes participantes tem relação inequívoca com o item
anterior. Foi a partir de 2008 que a Federação, visando atender ao maior número
de interesses possível, insuflou o Carioca de 12 para 16 times. Isto aumentou o
número de datas destinadas ao Estadual – em direção contrária a tudo o que se
apregoa atualmente – e maximizou a quantidade de jogos de baixa qualidade,
sendo pequenos contra pequenos ou grandes contra pequenos.
Numa
tentativa de remediar o mal – mas ainda mantendo a ascendência sobre os
menores, cujos votos são valiosos para a manutenção do poder – em 2017 a FERJ
procedeu uma emenda que, para variar, saiu pior do que o soneto. O torneio
segue tendo 16 clubes, mas a primeira fase foi disputada por apenas seis pequenos
– que constituíram o famigerado “Grupo A”. Ela incluiu os dois primeiros
colocados da Série B de 2016, mais os quatro times de pior campanha no Estadual
2016 (exceto os rebaixados!). Deste imbróglio, apenas dois tiveram a sorte de
se juntar aos dez clubes previamente qualificados para o “Carioca de verdade”.
Outros quatro foram disputar a aberração chamada “quadrangular do rebaixamento”
– como se, ao jogarem apenas contra outros pequenos, já não se sentissem
rebaixados de antemão.
Em
resumo: diminuíram os jogos de grandes contra pequenos por meio de ferramentas
que trouxeram ainda mais injustiças e distorções: a) Um time pode subir da
segunda divisão, investir para montar uma equipe e não ter sequer a
possibilidade de enfrentar os grandes; b) Torneios envolvendo nanicos sem apelo
prolongam-se indefinidamente em paralelo ao estadual principal, impactando
negativamente na média de público e positivamente na tábua de artilharia. Isto
mesmo: você sabia que o artilheiro do Estadual 2017 é Max, da Cabofriense, que
jogou apenas os “torneios da morte”?
Viabilidade
de se proceder mudanças: Média. Seria alta, já que basta a Federação decidir
pelo fim dos torneios paralelos e o retorno ao Estadual com 12, ascensão e
descenso diretos. Mas onde entraria o desejo de se controlar, na base do
cabresto, votos do maior número possível de agremiações? Vai contra o projeto
de perpetuação no poder que impera na FERJ.
3- Desvalorização dos pequenos e do
interior
Outra
decisão equivocada que impactou sobre a média de público foi a proibição,
alguns anos atrás, de a maioria dos pequenos mandarem jogos em seus estádios e
cidades. À época, alegou-se falta de estrutura para transmissões, falta de
segurança, laudos dos órgãos técnicos e outras tantas coisas inexistentes nos
cem campeonatos anteriores. O resultado, todos viram: excesso de jogos em
cidades com estádios autorizados mas sem demanda para eventos tão pobres e
numerosos, como Volta Redonda ou Macaé. O Estádio Raulino de Oliveira passou a
receber inúmeros grandes desinteressados e jogando com reservas. O Resende teve
que encará-los na mesma cidade, a 40 km de casa, desequilibrando a questão
esportiva pela falta do efeito-mandante. Ou seja, uma canetada chafurdou o
equilíbrio, as rendas e os públicos da competição.
Viabilidade
de se proceder mudanças: Baixa. A Federação passaria a ter que ajudar os
pequenos na adequação e manutenção de seus estádios. Ajuda bem diferente (e
mais cara) do que a usual, através do mero fornecimento de bolas, chuteiras,
uniformes…
4- Desvalorização do produto
Deveria
ser péssimo para a FERJ que alguns de seus principais integrantes tenham
rompido entre si por não coadunarem com as práticas alheias. Que outros, por
alinharem ideologicamente, digam amém a toda sorte de ingerências –
principalmente as que prejudicam os insatisfeitos. A Federação deveria fomentar
o consenso, e não alimentar a beligerância – como se verifica nos dias atuais.
Deveria
ser péssimo para a FERJ que a média de público do Estadual seja a menor da
década, impactando negativamente em sua imagem e prejudicando vendas tanto para
o público geral (bilheterias) quanto para veículos de mídia e patrocinadores
(placas publicitárias, naming rights, receitas de televisionamento, etc).
Deveria
ser péssimo para a FERJ que o Estadual do Rio de Janeiro – outrora o mais
importante – se tornasse motivo de chacota entre torcedores e profissionais de
estados com bem menos tradição no esporte. Mas muito mais público…
Viabilidade
de se proceder mudanças: nula, enquanto déspotas se perpetuarem em seus cargos
e intervenções do poder público não chegarem às federações de futebol.
Não
adentraremos no debate da falta da qualidade dos times, que impacta
visceralmente no baixo apelo do certame. Nem na insegurança de eventos que
atraem bandidos e culminam em pancadarias e mortes – boçalidades em ambientes
que deveriam celebrar a congregação. Tais questões não serão abordadas porque,
além de envolverem outras esferas (gestão esportiva, segurança pública, etc),
se fazem presentes em todos os outros estados. São chagas brasileiras,
portanto. Nosso foco é tudo aquilo que pode ser fruto de análise e alvo de
medidas drásticas por parte dos responsáveis pelo Campeonato Carioca de
futebol.
Pois
se quem manda nos estaduais são as federações, a do Rio de Janeiro – na figura
do sr. presidente Rubens Lopes – é a principal responsável pela implosão de seu
próprio torneio.
Um
grande abraço e saudações!
E-mail
da coluna: [email protected]
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