terça-feira, setembro 29, 2020
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Ronaldinho: Apenas uma década atrás…

Futebol
e Ficção – Uma década atrás, Ronaldinho caminhava para ser eleito pelo segundo
ano consecutivo o melhor jogador do mundo. Tinha a terra a seus pés com um
futebol que mais parecia ser produto do realismo fantástico, como se pudesse
ser descrito apenas nos livros do Nobel Gabriel Garcia Marquez. Era uma
fantasia improvável aliada a muita eficiência. Um malabarista pragmático, da
estirpe de Pelé, Garrincha, Maradona e outros poucos gênios que conseguiram
unir destreza absoluta com a bola e letalidade. Chegou como astro supremo da
Copa do Mundo da Alemanha, personagem mais altivo do quarteto mágico que
morreria, para muitos, no excesso de euforia da preparação de Weggis.
Uma
década transformou-se em um século para o meia. O crepúsculo comum aos deuses
humanos, normalmente paulatino, foi abrupto no seu caso. Somente fagulhas de
talento foram vistas na sequência de passagens por clubes brasileiros,
entremeadas por uma incursão rápida no Querétaro, do México. A torcida do Galo
há de tê-lo no coração. Não sem motivo. Teve protagonismo no inédito título da
Libertadores, sem desconsiderar que o goleiro Victor teve papel talvez até
maior. No Flamengo foram raros os momentos de brilho, como no famoso duelo com
Neymar na Vila Belmiro, e um gol de falta em final da Taça Guanabara. No
Fluminense, nem suspiro houve. A ponto de o patrocinador principal do clube,
Neville Proa, saudar sua rescisão com alívio e ironia, classificando-o de
“farrista”, em entrevista à Máquina do Esporte.
Ronaldinho
já tem o nome gravado no panteão da bola. O que fez é indelével, os vídeos,
livros e relatos pessoais darão conta de eternizar. É de se lastimar, no
entanto, que em idade não tão avançada assim, a mesma do artilheiro do
Campeonato Brasileiro, Ricardo Oliveira, e seis anos a menos que Zé Roberto, não
possa nos presentear com lampejos do seu talento.
A
passagem-relâmpago pelo Fluminense, com nove jogos sem marcar um mísero gol,
foi melancólica e acendeu o alarme de que o show pode ter mesmo terminado. Se
no Fla e no Galo as pegadas do craque de dez anos atrás foram percebidas
esporadicamente, desta vez não houve sombra. A possibilidade de jogar no
ascendente futebol dos Estados Unidos, que recruta nomes para dar publicidade
ao seu negócio, acena que a despedida está próxima. Uma década para um atleta
tem muito mais peso que para quase todas as outras profissões. Ainda assim, o
fato de dez anos separarem o Ronaldinho genial do Ronaldinho improdutivo é
intrigante.
Valdomiro
Ferreira Neto

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