terça-feira, setembro 22, 2020
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Se o estádio chegasse eu não resistiria.

Foto: Reprodução

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: Tomei um café no Lamas. Em seguida atravessei a Payssandu. Uma das
ruas mais encantadoras do Rio. Uma rua de alma rubro-negra. Ela ligava a
residência da princesa Isabel, logo ali no Palácio Guanabara (meu destino
naquela manhã), à Praia do Flamengo. Um caminho de palmeiras imperiais
plantadas a pedido do imperador Pedro II para criar aquele ar monumental, para
casa que tinha dado pra sua filha como presente de casamento. Com meu espírito
flâneur, no melhor que há em mim do Baudelaire, sendo eu uma pessoa que anda
pela cidade a fim de experimentá-la, pensava no Flamengo enquanto caminhava.
Crise. Contas. Sonhos. Decepções. Desejos. Amores. Textos para ler.
Pautas para trabalhar. Nada disso. Eu sempre me rendo ao Flamengo quando estou
flanando por aí. E naquela manhã eu lembrava dos 450 km que atravessei “só”
para ver o Flamengo jogar em Itaquera. Uma daquelas viagens cheia de amores.
Pelo Flamengo. Com o Flamengo. Acima de tudo Flamengo. Pensava de forma
seletiva por motivos óbvios. Mas, pensava. E a voz infernal da mestre de
cerimônias do estádio que anunciava os feitos dos donos da casa não saía da
minha cabeça. Aquilo era coisa de quem tinha estádio. E aquela maldita
lembrança foi meu basta. Meu chega. Eu quero entrar para a história como uma
torcedora que lutou por um estádio do Flamengo. E meu tempo é hoje. Não existe
amanhã para mim.

Nós,
rubro-negros, “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra” como bem
analisou – por outros tão intensos motivos, claro – Sérgio Buarque de Hollanda,
o pai do meu marido Chico (casamento-licença-poética), em Raízes do Brasil. O
Flamengo é ainda hoje um clube desterrado dentro da sua própria terra. NÃO
temos estádio. Uma vergonha. Uma afronta. Um descaso comigo, com meus 11
leitores, com uma Nação. Uma ausência que carregamos por conta de uma história
de dirigentes incompetentes, de políticos mal intencionados e de uma torcida
que se apropriou de um templo e criou nele seu maior espaço de devoção. Não
temos estádio. A voz da locutora do Itaquera parece repetir isso, invadindo
meus pensamentos e tornando minha travessia um calvário rubro-negro: NÃO TEMOS
ESTÁDIO, senhoras e senhores.
Um
morador de rua passa por mim vestido com um manto sagrado desbotado, rasgado,
surrado com as marcas da história daquela camisa que atravessou o tempo.
Esperei ele passar para ver o número nas costas. DEZ. Deus existe. E estava
ali, me tirando do transe-recalque e me transportando para 1920. O Flamengo
tinha sido campeão carioca com duas rodadas de antecedência. A única vez que
isso aconteceu na história do clube. O título foi conquistado de forma invicta;
sendo 13 vitórias e 5 empates, em 18 jogos. A partida decisiva foi disputada no
estádio da Rua Payssandu, no dia 28 de novembro daquele ano. O Flamengo venceu
o Andarahy por 2 x 1, com gols de Junqueira e Sydney Pullen. No primeiro turno,
derrotou Fluminense e Botafogo, bem ali, pelo mesmo placar, 2 x 1. E eu lá. Na
rua do “nosso estádio”, sofrendo pela falta de um.
Flamengo,
torna-te aquilo que és. Certeza que o velho Friedrich (Nietzsche) seria
rubro-negro. Eu não quero entrar para história de omissão (ou cumplicidade) de
quem não lutou por um estádio para chamar de NOSSO. Hoje “temos” o Maracanã, a
Gávea, e até um projeto de estádio. E nenhuma certeza. Os dirigentes
incompetentes insistem em nos rodear, os políticos mal intencionados também.
Mas o torcedor e a torcedora do Flamengo tem história de luta e resistência.
Não somos os mesmos a entrar nesse “rio”. As águas são outras. Eu, você e a
torcida do Flamengo NÃO vamos mais nos calar em relação a isso. Por vil metais
peregrinamos por jogos em casa, fora de casa. Pelos milhões das rendas
aceitamos que a torcida adversária não tema mais as cores do pavilhão do nosso
amor. E aceitamos passivamente que invadam nosso território, em busca do
dinheiro e do selfie da torcida mista. Homens que NUNCA pisaram numa
arquibancada, nunca cruzaram 450 km (e muito mais) para ver o Flamengo jogar,
nunca tomaram um Café no Lamas, nem atravessaram a Payssandu a pé só para
sentir o espírito do Flamengo nela. Esses homens-ceo ditam hoje o nosso destino.
BASTA. Queremos o nosso estádio e LUTAREMOS por ele. Nas redes, nas ruas, nas
URNAS. 45 milhões de torcedores, fora o baile. Força necessária para combater a
vaidade, o jogo de poder, a politicagem da Gávea, a má intenção e o DESTINO.
Vamos pras ruas em busca de um sonho em forma de desejo. Vamos em busca do
nosso estádio. Nossa arma é a nossa voz. Nosso grito de VAI PRA CIMA DELES,
MENGO. Nossa força que emana das arquibancadas da vida. E depois que a tarde
nos trouxesse a lua, se o amor (e o ESTÁDIO) chegasse eu não resistiria. E a
madrugada acalentaria a nossa paz. Fica, ó brisa fica, pois talvez quem sabe o
inesperado rubro-negro faça uma surpresa.
Pra
vocês,
Paz,
Amor e um Estádio.
Por
Vivi Mariano

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