sexta-feira, setembro 25, 2020
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Sem Unimed, Fluminense está à beira do colapso financeiro.

Arte: Epoca

EPOCA:
Pedro Abad, presidente do Fluminense desde o início de 2017, afirmou em
entrevista recente a ÉPOCA que tem uma prioridade clara: sanar as finanças do
clube a ponto de, em 2019, começar o ano com um orçamento empatado – as
receitas precisam ser suficientes para pagar as despesas. Sem a necessidade de
vender atletas. Sem a perspectiva de novos prejuízos. Habituado a uma década de
investimentos superiores à real capacidade financeira do time, graças ao antigo
patrocínio da Unimed, o torcedor talvez não tenha a dimensão do tamanho do
desafio que o cartola assumiu.

A
situação financeira tricolor vai de mal a pior. O faturamento do clube subiu em
2016, sim, de R$ 180 milhões para R$ 293 milhões. Mas por um motivo só. A
negociação antecipada dos direitos de transmissão das temporadas de 2019 a 2024
com a TV Globo rendeu luvas, um prêmio pela assinatura do contrato. Foram R$ 80
milhões de uma vez. O valor recorrente recebido da TV também subiu em relação
ao ano anterior. E as boas notícias param por aí. O departamento comercial e de
marketing gerou menos dinheiro, as bilheterias caíram, o programa de
sócios-torcedores também.
Mais
grave do que as receitas estagnadas são as crescentes dívidas. Nunca antes o
Fluminense deveu tanto na praça. O endividamento disparou e bateu em R$ 434
milhões. Nós podemos olhar para essas dívidas de duas maneiras para compreender
a gravidade delas. O primeiro modo é o prazo que o clube tem para pagá-las, e
isso piorou. Abad começa seu mandato com 37% de suas dívidas em curto prazo,
com vencimentos de até um ano, equivalentes a R$ 163 milhões. Para um clube que
fatura coisa de R$ 160 milhões, sem considerar receitas não recorrentes, como
luvas de novos acordos de televisão e transferências de jogadores, isso
significa que o time está inviável.
O que
se pode fazer numa situação dessas? Ou vender atletas, uma solução amarga, ou
tomar mais empréstimos em bancos. Foi o que fez Siemsen. Aqui entra o segundo
modo de encarar as dívidas tricolores. Se considerarmos apenas empréstimos
bancários, o clube saltou de R$ 39 milhões devidos em 2015 para R$ 81,5 milhões
em 2016. O problema disso é que, como sabe todo cidadão que já pegou dinheiro
emprestado em banco, o crédito vem acompanhado de juros. E cada centavo gasto
com juros é um centavo a menos em investimentos na equipe. No mais, todas as
dívidas do clube também subiram: tanto a fiscal (com o governo), quanto a
trabalhista (com atletas que ficaram sem receber e acionaram o time na
Justiça).
Uma
das explicações para o caos financeiro nas Laranjeiras, ironicamente, é a
Unimed. Celso Barros, ex-presidente da empresa de convênios médicos no Rio de
Janeiro, injetava dinheiro no clube à sua maneira: boa parte do patrocínio
correspondia a salários que a companhia pagava diretamente aos jogadores.
Conforme a patrocinadora pulou fora, gradativamente o clube passou a assumir
esses gastos. O indício disso está nas remunerações tricolores, que rondaram os
R$ 40 milhões de 2011 a 2014 e saltaram para R$ 100 milhões em 2016. Sem que
qualquer grande jogador, a exemplo do investimento que a Unimed fez em Fred nos
tempos de gastança, tenha sido contratado nesse período. O doping, enfim,
acabou.
O
pior, para um time em condições financeiras tão ruins, é que o preço disso será
sentido em curtíssimo prazo. O clube se ajeitou no início de 2017, sob o
comando de Abel Braga, com uma equipe formada primordialmente por talentos que
vieram das categorias de base. Mas as finanças em cacos cobrarão seu preço. A
equipe que disputará o início do Campeonato Brasileiro tende a ser desfalcada e
modificada no decorrer da temporada, sobretudo em agosto, quando abre a janela
de transferências de países europeus, porque o Fluminense terá de vender suas
promessas para levantar dinheiro e pagar suas contas – algo que Abad, na
entrevista a ÉPOCA, como poucos cartolas têm coragem de fazer, admitiu. O
desafio de empatar o orçamento a partir de 2019 talvez seja grande demais.

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