sexta-feira, setembro 25, 2020
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Sheik elogia Guerrero e Cristóvão, e detona o Flu: “Curral.”

Globo
Esporte – Ponderado? De língua sem freio, Emerson Sheik não polemizou durante
as primeiras entrevistas coletivas em sua segunda passagem pelo Flamengo,
iniciada em 16 de junho. No início de papo exclusivo com o GloboEsporte.com que
teve duração de 37 minutos, o jogador seguia a mesma linha. Pois é, seguia. Na
primeira resposta, perguntado justamente a respeito da fase light, creditou o
comportamento à maturidade – completa 37 anos em setembro. Esclarecia questão
por questão sem qualquer problema, mas só abriu a caixa de ferramentas aos 21
minutos de conversa. O velho Sheik entrou em cena – e de sola – quando o mau
momento do futebol brasileiro foi abordado. Responsabilizou um “bando de
vagabundos” por ter feito, em sua opinião, que o Brasil tenha deixado de
ser o “país do futebol’. Segundo ele, a CBF “ainda é uma
vergonha”. Também voltou a bater forte no presidente do Fluminense, Peter
Siemsen, e detonou o Estádio das Laranjeiras, ao qual tratou como
“curral”.

O olho
de Sheik brilhou ao falar do Flamengo e do alcance que a dupla de ataque e o
time podem ter na competição. Emerson espera dar continuidade à reação para que
os flamenguistas não se restrinjam a ficar feliz por sair de perto da zona de
rebaixamento. E mesmo 16 pontos atrás do líder Atlético-MG, não desiste do
sonho de conquistar o Brasileiro – em 2009, fez parte do início da campanha do
título rubro-negro. Defensor de Cristóvão, o atacante também negou qualquer
atrito com Guerrero, contrariando o que disse o colunista Léo Dias, de “O
Dia”. E encarnou no companheiro.
– Ele
não sabe falar português direito (risos). Ele fala “cão” e não caô
(da música), tem aquele cabelo morto, mas é gente boa. É feio, mas é maneiro. E
joga muito (risos).
De
costas para a Lagoa Rodrigo de Freitas, Sheik pegou no pé de Rodrigo Caetano,
atacou novamente o presidente do Fluminense, Peter Siensem, e provocou o Vasco,
negando a “sacanagem de Edmundo”, que conta a versão de que Sheik
frequentava São Januário quando pequeno e era chamado de Marcinho vascaíno.
– Isso
corre aqui (aponta para a veia do braço e bate), minha história condiz com a do
Flamengo. Eu sou vencedor – provocou, para não perder o costume, o Sheik
flamenguista.
Confira
o bate-papo abaixo:
Sheik, você anda um pouco mais calado e
menos polêmico. É maturidade alcançada?
Como
todos me conhecem, sou cara de personalidade muito forte, falo tudo aquilo que
eu entendo que seja verdade. Mas já há um bom tempo adotei postura um pouquinho
diferente, não deixando de opinar nem de colocar minha cara na hora que entendo
que seja importante, mas adotei postura diferente. Talvez a maturidade também
tenha colaborado.
Tem inspiração em grandes frasistas, como
Romário e Renato Gaúcho?
Eu sou
dessa geração aí. Do Renato, Edmundo e Paulo Nunes, que falavam também o que
pensavam. Do Romário também. Acho que o futebol perdeu um pouco isso, às vezes
as pessoas levam de uma forma diferente, até entendem de maneira desrespeitosa,
agressiva, mas não vejo assim. Como quase tudo muda, o esporte também, faz
falta. Foram craques do passado dentro e fora de campo. Digo isso pela maneira que
levavam a vida, nunca esquecendo do trabalho, de estar sempre tentando dar o
melhor dentro das quatro linhas, mas também vivendo. Acho que hoje o jogador de
futebol se limita muito ao trabalho e esquece um pouco do lazer. Eu não
consigo. Sou comprometido com o meu trabalho e tento levar vida normal como
qualquer pessoa comum. Tento ter, né, na medida do possível.
Gosta de um chopinho, né? Mas parece estar
sempre seco. Se cuida para seguir bem fisicamente?
Sempre
tomei maior cuidado com isso, até porque trabalho com meu corpo e tenho que
estar bem para jogar. Tem os horários e os dias certos de fazer isso, a nossa
vida é muito corrida, tem concentração, viagem, treino de segunda a segunda.
Então tem que tomar cuidado quanto a isso porque não faz bem. Nos meus momentos
de folga, dentro da minha casa, com minha família, melhores amigos, a gente se
diverte também, mas ainda assim de maneira moderada para não cometer o exagero.
O “mais” nunca é legal. Tem que ter controle até para isso.
Toma cuidado nas férias?
Não,
nada. Meu cuidado maior é com o álcool mesmo, sou chato quanto a isso. Mas nas
minhas férias não treino. Só durante o calendário, que é longo e exige muito.
Aí tenho cuidado com a bebida, que é fundamental e vale muito.
O que mudou do Emerson, um desconhecido em
2009, para o consagrado agora em 2015?
A
personalidade e a maneira de tratar as pessoas são as mesmas. O fato de ser
conhecido hoje não mudou absolutamente nada pelo respeito, de ver as pessoas
como ser humano. É óbvio que tem o lado profissional, até por tudo que
aconteceu nesses cinco, seis anos de conquista. Mudou muito, o reconhecimento é
maior, já não posso mais estar em todos os lugares que gostaria de estar. Mas
tento levar vida comum como qualquer cidadão normal.
Você disputou o Sul-Americano sub-20 em 99
com Ronaldinho, Dodô, França… Pensou em como seria a vida se ficasse no
Brasil em vez de ir para o Japão (em 2000, aos 22 anos)?

pensei muito, mas acho que Deus faz as coisas certinhas, por mais que a gente esteja
errado. Ser humano é muito falho, mas dou graças a Deus por tudo que aconteceu
e da maneira que aconteceu. Óbvio que lá atrás poderia ser diferente, vendo
todos esses caras que estiveram comigo no Sul-Americano fazendo grande sucesso,
em grandes clubes. Eu pensava, sim. Hoje entendo que tudo que aconteceu comigo
tinha que acontecer. Não me arrependo de absolutamente nada. De nenhum clube,
nenhum país. Me deu mais maturidade, mais experiência como homem.
O colunista Léo Dias, de “O
Dia”, disse que você e Guerrero não se dão bem. Procede?
(risos)
Não deveria nem responder porque isso é um absurdo, mas vou responder em função
de tudo que está acontecendo com ele (Guerrero), pelo sucesso dele. Léo Dias,
você é meu amigo, tá? Fecha! (Guerrero) É um cara extremamente do bem, que
trabalha para caramba, cara amigo. Fiquei com ele no Corinthians quase três
anos e meio. É um cara querido por todo mundo, e não estou falando de
diretoria, comissão técnica e jogadores. Os funcionários também (gostam de
Guerrero). Ele merece muito mais. Além de ser um craque, é muito do bem, merece
mesmo. Não tenho muito o que falar. A gente é “brother” para caramba.
Então não tem história, pergunta para ele. Nunca tive problema nem nada. Só
quero fazer meu negocinho ali, só quero ganhar. Que tudo fique para ele. Ele
merece para caramba, e a música dele é irada.
Ele tem dificuldade de aprender português?
Ele é
muito fraco, não sabe falar português direito (risos). Ele fala “cão”
e não caô, tem aquele cabelo morto dele, mas é gente boa. É feio, mas é
maneiro. E joga muito (risos).
O Flamengo já teve o “melhor ataque
do mundo” (com Sávio, Romário e Edmundo) que fracassou. Até onde essa
dupla pode chegar? Já é o melhor ataque do Brasil?
Acho
que ainda não porque, para ser o melhor, precisa que um grupo todo funcione, de
um bom meio de campo, de uma boa defesa. E para a defesa ser boa precisa da
colaboração do ataque, então todo um conjunto precisa funcionar. Acredito não
só na dupla, mas no que está se formando. Sonho alto demais, sou um cara que
não gosta de estar por estar, gosto de conquistar, ser diferente, marcar. Acho
que todo o time pode chegar longe e já nesse Brasileiro. Ganhamos dois jogos,
fizemos boas atuações, mas ainda não é o que pode ser e o que deve ser. Mas,
por ser o Flamengo, a gente tem que parar de ficar feliz de sair da zona de
rebaixamento para começar a ser feliz entre os quatro primeiros.
Em 2009, o Flamengo chegou a ficar
afastado do G-4 – na 21ª rodada, última antes do início da arrancada, a
diferença para o líder do Fla, então 10ª colocado, era de 11 pontos para o
Palmeiras. Você diz que só pensa em coisas grandes. O panorama é o mesmo agora.
Acha que é possível repetir aquele “milagre”? O heptacampeonato é
palpável?
Não
sei se foi milagre, pode ter sido com a ajuda de Deus. Foi com trabalho,
dedicação e entrega de um grupo e da comissão. Eu acredito, sonho alto e sou
otimista para tudo que faço. Vejo o Flamengo hoje crescendo, um torcedor que
não sei se está empolgado ou feliz, mas que tem uma importância muito grande. E
também vejo um treinador completamente compromissado em fazer o melhor, um cara
que vive o clube, que chega antes de todo mundo, que estuda o melhor treino, a
melhor estratégia. É um cara que se dedica integralmente ao clube a fim de que
se encontre a melhor forma de jogar. Acredito que, com essa pegada e todos
comprometidos, a gente possa sonhar com coisas maiores. 
Você conheceu o Cristóvão em 2009, lá no
Al-Ain, quando ele era auxiliar. Já via nele um potencial para grande
treinador? Criou-se uma grande amizade desde então?
A
proximidade entre brasileiros fora do país é natural, mas não nos tornamos
grandes amigos. Mas sempre que falei do Cristóvão me referi ao lado
profissional dele, porque já havia trabalhado com ele. É um cara competente,
inteligente, que não faz as coisas de maneira aleatória. Briguei por ele talvez
por ser mais velho e deveria ter dito aquilo. Vejo os atletas muito confiantes
no trabalho dele, então me senti muito à vontade para falar. É um cara que sabe
o caminho para alcançar o melhor. Eu acredito muito nele, talvez o que a
diretoria do Flamengo fez com o Cristóvão nesse momento sirva de exemplo para
os outros clubes. A gente tem essa cultura de que o treinador perde dois jogos
e que tem de mandar embora. Não é por aí, não, e é muito difícil mandar o
atleta ir embora. Quando ganha, todo mundo ganha. Quando perde, todo mundo
perde. Tem que lembrar que quem entra dentro das quatro linhas é o jogador.
O que acontece com o futebol brasileiro?
Está atrasado? O Brasil perdeu na Copa do Mundo e na Copa América. É problema
de geração não tão boa, não há avanços táticos?
Acompanho,
sim, essa confusão toda que vem acontecendo. De tudo que escuto, há uma palavra
que talvez resuma essa confusão toda que vem sendo o nosso futebol, também não
sei se a geração ajuda muito. Planejamento é algo que falta há muitos anos. A
seleção brasileira pagou por isso e por situações que são mais difíceis de
entender. É uma pena para nós, que estamos envolvidos com futebol, vermos tanto
vagabundo roubando, tanta gente errada… Quem perde é o povo brasileiro,
porque é a nossa paixão, os atletas… O país do futebol talvez não seja mais o
país do futebol. Isso não é por conta dos atletas, mas por conta desse bando de
vagabundos que atrapalha. Se eu começar a falar, vai dar m… Mas é feio de se
ver.
A CBF ainda é uma vergonha?
É uma
vergonha muito grande para todos nós, não só os atletas, mas para todo o povo
brasileiro.
E o Brasil: é uma vergonha?
Acho
que o Brasil não é uma vergonha. Por tudo que a gente escuta e vê, talvez um
pedaço de Brasília seja uma vergonha. Os nossos políticos não têm aprovação, se
envolvem em escândalos, tirando saúde, educação e dinheiro de quem precisa. Mas
só vamos falar, não tem perspectiva de mudança porque eles gostam de roubar.
Em 2012, depois do título da Libertadores,
você falou em mais quatro anos de carreira. Esse ano seria 2016. Mas na
apresentação ao Flamengo, o Rodrigo Caetano falou que te contratou pensando em
renovar por alguns anos. O que você já pensou sobre isso e o que imagina para
fazer depois de parar? Vai virar empresário, político?
Iam me
matar (sobre se seria político). Estou me sentindo muito bem. O que conta hoje
no futebol moderno é a parte física. O craque, o Zico, o camisa 10, hoje é
muito difícil de se encontrar. A parte técnica ainda tem importância, mas a
parte física é muito mais importante. Com meu biotipo, que ajuda bastante, e os
cuidados que tenho, eu me vejo jogando por mais um período. Vou falar uma coisa
que nunca falei para ele, mas acho que o Rodrigo estava bem desconfiado na
minha vinda. Mas a gente conseguiu em tão pouco tempo fechar um relacionamento
de confiança, foi muito bacana. Ele é um cara que me agrada. Ele não tem curva,
fala na cara. Vejo grandeza em pessoas assim.
Já que citou o Rodrigo, fala-se que em
2011 você teve uma proposta do Vasco em que o Rodrigo bateu o pé por causa de
R$ 20 mil. É verdade?
Quem
cuida das minhas coisas é o Reinaldo (Pitta, empresário dele), e eu fico muito
distante disso tudo. Ele sabe que tem um limite financeiro para menos, e o
restante ele que faz. Também ouvi isso, mas se de fato foi verdade é mais uma
história engraçada minha e do Rodrigo. Se foi, passou. Tenho uma admiração
hoje, cara muito correto, muito profissional. O Flamengo está muito bem
servido. Ele olha o jogador, mas olha muito mais o lado da instituição. Tem
gente que vê isso de maneira errada, mas acho isso legal. Somos funcionários do
Flamengo. Ah, a ideia era de continuar no ano que vem. Vamos ver, né, Rodrigo?
(risos).
Aproveitando o “assunto Vasco”,
explique de vez por que existe esse papo de que você é vascaíno. O Edmundo diz
que você ia a São Januário ver os treinos e que era conhecido como
“Marcinho vascaíno” (o nome de batismo de Emerson é Márcio – fez o
famoso “gato” em 96, no início da carreira). Você já falou do seu
pai, ele não era fanático ao ponto de te influenciar?
Eu não
tinha nem dinheiro para pegar ônibus (risos). Como que eu iria para São
Januário? Cara, passa muito longe disso. Meu pai era vascaíno, mas ele se
separou da minha mãe quando eu tinha três para quatro anos. Não deu nem tempo
de ele me induzir a ser Vasco. O Edmundo fez esse brincadeira inúmeras vezes.
Por quê?
Porque
ele é sacana, sei lá, porque ele é doido.
Mas ele é seu amigo, não?
Amo
ele de paixão, cara que é completamente do bem, meu amigo. Mas é sacanagem
dele. Eu não vou provocar, né? Ou vou provocar (o Vasco). Isso corre aqui,
minha história condiz com a do Flamengo. Eu sou vencedor (risos).
Ainda sobre craques, Ronaldinho chegou ao
Fluminense. O que representa?
Para o
futebol brasileiro, agrega muito. Sensacional para o futebol carioca, que
precisa de alguns Ronaldinhos, Paolos Guerreros para engrandecer um pouco mais.
A estrutura dos clubes do Rio, por exemplo, está bem distante da oferecida
pelos de São Paulo.
Você falou de um tricolor. Sabe que o
Fla-Flu do returno será disputado no dia do seu aniversário (6 de setembro)?
Vai
dar ruim (risos). Não quero ficar triste no dia do meu aniversário.
Pensa em dançar o Bonde do Mengão sem
Freio (música que cantou em viagem do Fluminense durante a Libertadores e que
motivou sua dispensa) caso marque no clássico?
Não
sei, a gente pode criar alguma coisa diferente.
O Fluminense é o time que você mais gosta
de vencer?
Gosto
também de ganhar do Vasco. Do Fluminense eu não tenho nada contra a
instituição. Sou contra, sim, os torcedores ignorantes que procuraram não
enxergar a verdade. Eu sou contra a pessoa que me fez mal naquele momento.
Posteriormente me fez muito bem, porque o clube não tinha estrutura para montar
uma equipe competitiva para conquistar o que conquistei. Não tinha nem campo
para treinar direito. A gente treinava naquele curral lá, que é a Laranjeiras.
Acabei indo para um clube que me deu estrutura para trabalhar e lá ganhei
Brasileiro, Libertadores, Mundial, Recopa, Paulista. Ganhei tudo.
A pessoa é o Peter (Siemsen, presidente do
Fluminense)?
Me
refiro ao presidente, já falei isso inúmeras vezes. Foi ele que me chamou e ele
que me expulsou do clube de uma maneira muito desrespeitosa, uma vez que tinha
feito um gol que deu título (Brasileiro) ao clube depois de 26 anos. Não tem o
meu respeito.
E o Fred?
Nada
contra e nada a favor.
Você disse que ele te fez bem
indiretamente, pois acabou indo para o Corinthians. Depois do sucesso lá,
vários títulos e com a idade avançada, imaginava que um retorno à Gávea ainda
iria acontecer?
Eu
sempre deixei claro o meu desejo de voltar para cá. Esse meu negócio com o
torcedor do Flamengo é muito louco. Não sei se tem a ver com periferia, favela.
Não sei se eles me veem em campo e pensam: “Pô, acho que em campo eu faria
o que esse cara está fazendo”. Esse é meu estilo, não tem tempo ruim. É
“tiro, porrada e bomba”, como a gente costuma dizer. E a
identificação foi incrível, veio título carioca e brasileiro, o que marca.
Tenho 36 anos, bem realizado, então jogo aqui por amor e prazer.

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