domingo, setembro 27, 2020
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Siemsen, Nobre e Bandeira saltaram juntos para o fundo do balde.

Foto: MONTAGEM/DIVULGAÇÃO

MAURÍCIO
BARROS
: Ele voltou. Tem sido a marca de nossa desgraça futebolística. Uma
tatuagem de cadeia, que escancara ao mundo a deturpação genética de nosso mais
querido esporte. Lá vem o asterisco, esse sinal gráfico que arranca nossos
olhos da prosa que interessa para mergulhá-los em letrinhas ininteligíveis de
rodapé de tabela. “Não conseguimos explicar aqui, joguemos lá pra
baixo”. Desculpe a grosseria, amigo, mas o asterisco é o fiofó da língua.
Inclusive, se parece com ele.

Eis
que o Campeonato Brasileiro de 2016 ganha seu primeiro asterisco. É o cúmulo do
fim da picada. Um torneio que trouxe cores diferentes ao topo da tabela – o
verde e o rubro-negro, que na Gávea são uma cor só -, tão belamente disputado e
indefinido, patinará nos próximos dias no piso áspero do Tapetão, repleto de
ácaros de gravata. Há três pontos em suspenso.
Nestes
últimos dias, vimos quão infelizes podem ser cartolas, mesmo aqueles que
acreditamos representarem algo novo, como os presidentes Peter Siemsen, do
Fluminense, Eduardo Bandeira, do Flamengo, e Paulo Nobre, do Palmeiras (e eu
ainda creio que são muito melhores que a média). Os três eram belos caranguejos
prestes a sair do balde, mas se deram as mãos e saltaram juntos de novo para o
fundo. Os de baixo riram e lhes deram as boas-vindas.
Dado o
histórico de bastidores do Fluminense, como seria lindo se o clube restringisse
sua revolta pelo ocorrido no Fla-Flu a um protesto em relação à interferência
de agentes externos (no caso, seria o inspetor Sérgio Santos) na arbitragem do
jogo. O juridiquês pode nos enrolar com retóricas mil, mas o fato é que, moralmente,
o Flu despenca quando pleiteia a anulação de um jogo por conta de um lance em
que a arbitragem, no fim das contas, acertou. Nos asteriscos dos códigos,
pode-se desencavar mil argumentos. Nenhum, no entanto, encontrará o bom senso.
Do
lado palmeirense, a entrevista coletiva de Paulo Nobre, ancorado por seu
homem-forte do futebol Alexandre Mattos, foi um festival de ilações e
insinuações. Sem coragem para citar nomes nem clubes, a dupla jogou ao vento
que haveria uma conspiração para dar o título brasileiro ao Flamengo em
detrimento do Palmeiras, e a prova cabal seria a lambança capitaneada por
Sandro Meira Ricci no clássico carioca. Mattos, também sem citar nomes, disse
que recebeu telefonemas de dirigentes de clubes que vão enfrentar o Flamengo no
campeonato e que estariam temerosos de “armações”. Gritos, chiliques,
pitis.
Do
lado rubro-negro, Eduardo Bandeira tentou manter a elegância quando foi
confrontado com as declarações de Siemsen, Nobre e Mattos após o Fla-Flu, ao
vivo na ESPN, mas também elevou o tom. Coube a seu vice de Comunicação, Antonio
Tabet, um ator, roteirista e humorista brilhante, cuja entrada no futebol deve
ser celebrada, dada sua capacidade de oxigenar as ideias por onde passa, baixar
o nível ao desferir ataques pessoais, “veladamente”, ao presidente
palestrino. “Criança mimada e acostumada a ser dona da bola normalmente
cresce com problemas de caráter. #PaiRicoFilhoNobreNetoPobre”, escreveu
Tabet.
Menosprezando
a inteligência alheia, nem Tabet nem Bandeira assumiram que o tuíte se referia
ao presidente-mecenas Paulo Nobre, mas quem acredita que o vice não está
falando de Nobre, acredita em qualquer coisa.
Clubes
são nações, e presidentes são estadistas. Precisam se comportar como tais. Em
vez de lançarem acusações a rodo, deveriam estar discutindo maneiras de
melhorar as arbitragens, preparar adequadamente juízes e auxiliares para que os
erros sejam minimizados. O futebol é uma engrenagem onde os clubes são
interdependentes. Quando os presidentes colocam em dúvida a lisura do torneio, sem
apresentar provas cabais, atiram para todos os lados, mas a única coisa que
conseguem acertar são os próprios pés.

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