quarta-feira, setembro 30, 2020
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Tita critica Flamengo e diz que Clube sacaneia ídolos.

Foto: Reprodução

UOL: Tita
surgiu como uma revelação do ataque do Flamengo no final da década de 1970. Em
pouco tempo, conquistou diversos títulos pela equipe: Campeonato Carioca (1978,
1979, 1979 especial e 1981), Campeonato Brasileiro (1980 e 1982), Copa
Libertadores da América (1981) e Mundial Interclubes (1981). Ainda jovem,
tornou-se destaque de uma das mais vitoriosas gerações do clube e rapidamente
entrou no radar da seleção brasileira. Só que nunca conseguiu brilhar em uma
Copa do Mundo.

Em
1978, aos 20 anos, era jovem demais para ser convocado pelo técnico Claudio
Coutinho – justamente o responsável por revelá-lo no Flamengo – para o Mundial
na Argentina. Em 1982 e 1986, foi preterido por Telê Santana. Em 1990, finalmente
ganhou uma chance com Sebastião Lazaroni – mas ficou no banco de reservas
durante todo o torneio.
“Em
1978, eu não tinha chance nenhuma de ser convocado – eu estava começando eu
estava me firmando entre os profissionais do Flamengo. Fui convocado em 1979 –
depois que a seleção voltou da Copa (do Mundo), teve a Copa América, aí o
Cláudio Coutinho me convocou”, contou Tita, em entrevista ao UOL Esporte.
Talvez
a convocação para uma Copa do Mundo tivesse chegado em 1982, mas Tita optou por
deixar o ataque do Flamengo para atuar como meia. Acabou ficando de fora,
enquanto nomes como Toninho Cerezo, Sócrates, Falcão, Zico e Renato compunham o
meio de campo da seleção brasileira na Espanha.
“Em
1982, aí sim, foi o grande erro na minha vida. Seria a convocação ideal. Acho
que não fui por causa de uma decisão equivocada da juventude, de ser jovem, de
achar que eu não tinha que jogar naquela posição (atacante), que a minha melhor
participação seria no meio do que na ponta… Aí, tomei a decisão de não ir à
Copa, entendeu? Eu jogava como ponta e não era a minha posição de origem, como
meia. Depois da classificação para a Copa do Mundo, eu não quis mais jogar na
ponta direita. O Telê me convocou para a ponta, mas depois da classificação, eu
não quis mais jogar pela ponta direita”, contou Tita, indo além.
“Quando
você é jovem, comete muitos erros. A ansiedade e a insegurança te levam a tomar
decisões que até atrapalham a sua vida profissional. Você imagina eu, com 21
anos, poderia ter disputado uma Copa do Mundo como titular absoluto? Como
atleta profissional, foi o maior erro meu deixar de participar de uma Copa do
Mundo. Titular da seleção do Brasil, qualquer profissional gostaria”,
completou.
Nos
anos seguintes, Tita passou ainda por Grêmio (1983, com o título da Libertadores)
e Internacional (1985 a 1986).
“Em
1986, (a ausência na seleção) foi opção do Telê. Ele não me levou, apesar de eu
estar em um bom momento no Internacional – eu fui artilheiro do Inter no
Campeonato Brasileiro, no Campeonato Gaúcho. O Telê não me chamou. Eu estava em
um bom momento, estava a fim, e ele não me chamou”, lamenta.
Em
1987, Tita chegou ao Vasco, onde caiu nas graças da torcida – foi o autor do
gol que deu o título do Campeonato Carioca daquele ano, justamente diante do
Flamengo. Nos anos seguintes, passou por Bayer Leverkusen (Alemanha) e Pescara
(Itália); em 1989, retornou ao Vasco para conquistar o Campeonato Brasileiro.
De
tanto esperar, a chance de disputar uma Copa do Mundo finalmente chegou. Em
1990, aos 32 anos, foi convocado por Sebastião Lazaroni (que havia sido seu
técnico no Vasco em 1987) para disputar o Mundial na Itália.
“Eu
estava muito bem, mesmo com 32 anos. Tinha feito uma boa temporada com o
Pescara, fui artilheiro no Pescara, depois voltei para o Vasco da Gama e servi
à seleção”, relembra, sem lamentar a demora na chance. “Você sabe
muito bem: seleção não te espera”, relembra.
Tita ou Neto? Em 1990, vascaíno levou a
melhor
Não
que Tita não tivesse jogado – com destaque – pela seleção brasileira antes da
Copa do Mundo de 1990. Disputou as Copas América de 1979, 1983 e 1989, sendo
campeão na última já sob o comando de Lazaroni.
Para
se firmar na seleção com Lazaroni, porém, Tita levou a melhor na disputa por
posição com Neto, então em ascensão no Corinthians. O fato provocou chiadeira
de parte da torcida, mas não abalou o então vascaíno.
“Em
1989, na Copa América que o Brasil ganhou, eu comecei como titular. No primeiro
jogo, contra a Venezuela (vitória por 3 a 1), eu fui titular com a camisa 10.
As pessoas de São Paulo faziam comentários de que o Lazaroni era amigo meu
porque queriam o Neto na seleção, entendeu? Isso é normal. Talvez a véspera da
Copa do Mundo tenha sido o melhor momento do Neto e a imprensa de São Paulo
achava que o Neto tinha que ir (à Copa de 1990); aí, as pessoas começaram a
colocar que eu era amigo do Lazaroni”, desabafa.
“Não
tinha nada a ver isso. Eu estava jogando bem também, eu tinha acabado de ser campeão
brasileiro de 1989, fomos campeões no Vasco contra o São Paulo, naquele gol do
Sorato. O Nelsinho Rosa, treinador do Vasco, era o auxiliar do Lazaroni na
seleção brasileira. O Lazaroni foi meu treinador no Vasco em 1987 quando eu fiz
aquele gol contra o Flamengo na decisão do Campeonato Carioca. Então, essa
coisa de amizade com o Lazaroni começou a ser levantada pelo pessoal de São
Paulo. Eles queriam o Neto na seleção, e o Neto estava em uma boa fase no
Corinthians”, completa.
No
fim, Tita foi convocado e Neto ficou de fora. Em seu lugar, Lazaroni levou
outro destaque do Vasco: Bismarck, de 20 anos. E até Tita estranha um pouco o
fato de o corintiano ter ficado de fora daquele Mundial – no fim, o hoje
comentarista jamais teria outra chance de disputar uma Copa do Mundo.
“O
Lazaroni preferiu levar o Bismarck, que era um garoto na época. Mas, no time,
daria para jogar eu e o Neto”, conta. “O Lazaroni preferiu levar o
Bismarck, um garoto que estava subindo no Vasco, e apostou nele.”
A foto polêmica e o fim de carreira
A
preparação para a Copa do Mundo de 1990 foi marcada ainda por outra polêmica: o
acordo de patrocínio negociado entre CBF, J. Hawilla e Pepsi. Na ocasião, a
Traffic (empresa de Hawilla) intermediou o acordo da empresa com a seleção, que
receberia US$ 3 milhões para expor sua marca nas camisas de treino da seleção.
O
valor estava em contrato, mas não foi apresentado aos jogadores. Revoltados com
a exposição da empresa e com o pouco montante destinado aos convocados, o
elenco tentou – sem sucesso – uma reunião com o então presidente da CBF,
Ricardo Teixeira. Como resposta, posaram para uma foto da delegação tapando o
símbolo da entidade e a marca do patrocinador.
“Teve
um problema com a Pepsi, e nós colocamos a mão no escudo da CBF. Isso aconteceu
quando a gente foi tirar a fotografia. Não foi uma foto oficial; foi uma foto
quando nós estávamos terminando os trabalhos na Granja Comary. Alguém falou:
‘vamos colocar a mão no escudo para não aparecer’. Aí todo mundo saiu com
aquela foto ali”, declarou.
A
confusão entre jogadores e dirigentes acabou minando a seleção na Copa do
Mundo. O time acabou eliminado pela Argentina nas oitavas de final.
Tita
não foi mais convocado. Voltou ao Flamengo em 1990, passou pelo futebol
mexicano entre 1991 e 1997 e se aposentou no Comunicaciones (Guatemala) em
1997.
Como técnico, dívida do Vasco e problemas
no mercado
O
adeus de Tita ao futebol, porém, durou pouco. Em 2000, começou sua carreira
como treinador – primeiro, em uma rápida passagem pelo próprio Vasco; depois,
no Americano, de Campos dos Goytacazes (RJ). Nos anos seguintes, passou por
clubes de Japão e Estados Unidos, além de equipes como América-RJ (2002 a
2003), Bangu (2003), Caxias (2004), Remo (2004 a 2005), Campinense (2005),
Olaria (2005), Tupi (2006 a 2007), América-RN (2009) e Volta Redonda (2010).
Em
2010, Tita ganhou sua principal oportunidade como treinador no exterior: foi
convidado para assumir o León (México), onde ficou até 2011. No ano seguinte,
comandou o Necaxa, também no futebol mexicano. Embora os resultados tenham sido
discretos, o agora técnico ficou no país até 2014.
“Aqui
no Brasil, principalmente, é muito difícil ser treinador. Eu fiz dois trabalhos
bons no México, com o León e com o Necaxa, e tenho a ideia de voltar para o
México. É um bom mercado, tenho um nome forte no México. Lá os caras pagam, o
pessoal é sério – aqui você trabalha e trabalha, mas chega no final do mês e
você não recebe. Aí você perde um jogo, fica dois ou três meses e os caras não
te pagam”, explica Tita, com lembranças ruins de trabalhos no Brasil.
“Eu
penso em trabalhar aqui no Brasil, mas é muito difícil. Eu trabalhei no Vasco
em 2008, e até hoje o Vasco não me pagou. O Roberto Dinamite (então presidente
do clube), sempre que me encontrava, falava aquilo lá, ‘nós vamos acertar’, não
sei o quê… E até hoje nada”, critica.
“No
início deste ano, eu fiz um trabalho legal no Macaé. O Macaé tinha ido muito
mal no primeiro turno do Campeonato Carioca; aí eu assumi no segundo turno,
classificamos para a Taça Rio, ficamos no segundo lugar geral. Foi um trabalho
muito bom, só que a dificuldade de você receber em dia, de você receber um bom
salário… É difícil. Fiquei lá por três meses no Macaé. Foi meu último trabalho
no futebol, de fevereiro a maio deste ano”, acrescentou.
Tita
agora procura um clube para trabalhar como treinador. Mas sabe que a situação
não é tão simples. Por isso, procura espaço em equipes menores.
“Não
tenho empresário para me indicar trabalho. Se as pessoas falarem, lembrarem,
recordarem e me telefonarem, pô, eu adoro trabalhar. Os clubes dos quais eu
faço parte são clubes pequenos, com poucas chances econômicas, então fica
difícil a gente fazer um trabalho legal”, lamenta, ciente de que o passado
como jogador não deve ajudar muito na carreira à beira do gramado.
“Da
mesma forma que eu fiz parte de uma geração vencedora, teve outros jogadores,
outros atletas, outros treinadores que surgiram. Ou seja: da mesma forma que
você quer uma oportunidade, tem outros milhares de pessoas que também estão
buscando. Os clubes que eu poderia alcançar são clubes pequenos, com poucas
chances econômicas. Não é qualquer clube do qual eu me atreveria a aceitar um
convite. Hoje você vê que são poucos os times que estão em dia com os atletas –
na primeira divisão (do Campeonato Brasileiro), tem o América-MG, o Santa Cruz,
times que estão na zona do rebaixamento e que eu não sei se estão em dia,
entendeu? Na Série B, tem muitos clubes que não estão em dia com os jogadores.
Se você falar na Série C e na Série D, aí piora tudo”, lamentou.
E uma
chance de voltar ao Flamengo, onde brilhou como jogador, mas como técnico? O
próprio Tita acha difícil – não apenas pela boa situação de Zé Ricardo
atualmente no cargo, mas principalmente pelo histórico que remete a seu gol na
final do Campeonato Carioca de 1987.
“Acho
que, depois que eu fiz aquele gol de 1987, vai ser difícil eu voltar lá. Isso
marcou muito, lógico. Um gol em uma final, e como foi a minha comemoração
também… Eu saí correndo e coloquei a camisa do Vasco na cara”, afirma, sem
esconder uma certa mágoa com o clube da Gávea.
“Imagina
agora se tivesse um jogo Vasco x Flamengo, o Jayme (de Almeida) fosse treinador
do Vasco e o Vasco ganhasse. Você acha que o Jayme não ia comemorar pela
sacanagem que fizeram com ele? Às vezes, as pessoas carregam essas situações. O
Flamengo, por incrível que pareça, é um time que tem amor e ódio na situação.
Ao mesmo tempo que você foi cria da casa, fez parte daquele grande time, o
Flamengo sacaneia o Zico, o Junior, o Adílio, o Andrade, o Jayme. Isso é
cultural, faz parte da história do Flamengo – com o prata da casa, eles acham
que podem fazer o que bem quiserem.”
Mas nem tudo é futebol na carreira de Tita
Tita
pertence à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (a Igreja Mórmon)
desde os 12 anos. Por isso mesmo, mesmo nos tempos de jogador, nunca foi muito
chegado à badalação.
“Tinham
muito respeito (à religião) na época. Eu fui praticamente o pioneiro aqui no
Brasil. Minha família sempre foi muito religiosa, meus pais sempre foram muitos
religiosos – foram batistas, metodistas, depois conhecemos a igreja (mórmon),
nos filiamos e estamos na igreja até hoje”, conta.
“Muita
coisa era diferente (na relação entre religião e futebol), principalmente as
comemorações depois de um título, as festas… Eu participava pouco disso, era
reservado, não participava. Isso era difícil de entender para os jogadores da
época, mas a gente convivia com isso”, completa.
Hoje,
enquanto espera uma chance para voltar a trabalhar como treinador, Tita já
começa a trabalhar também como empresário. Desde 2011, sua família é dona de
duas unidades de uma franquia canadense de escolas de inglês no Rio de Janeiro.
“A
gente trabalha com educação infantil e fundamental. Já temos (o negócio) há
cinco anos. Compramos a franquia aqui no Rio de Janeiro. São cinco franquias;
destas, nós temos duas. Aqui na Barra da Tijuca, nós temos cerca de 200
alunos”, conta Tita, que não se vê trabalhando em grandes clubes.
“Não
vejo mais isso, não. Esse sonho eu não vejo mais”, explica. “O meu
sonho é que os meus filhos tenham saúde, meus netos também, cresçam dentro da
família deles. Sou avô e já tenho quatro netos – tenho dois filhos, dois netos
de cada um. Nenhum é boleiro. Eu tenho vídeos dos meus gols, e quando eles se
interessam, eu mostro. Eles falam: ‘olha, o vovô na televisão’.”

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