domingo, setembro 20, 2020
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Torcida pode ser o pulso do jogo.

Futebol
e Ficção – Antes de a partida começar, a câmera aérea focaliza o estádio por
cima. O gigante de concreto abriga um show de pirotecnia, cânticos e adereços
com predominância nas cores do clube mandante. É batata! A TV exibe ao vivo o
entusiasmo plástico dos que antes seriam arquibaldos e geraldinos, mas em
tempos de arenas travestem-se de cadeiraldos ou cadeirinos, à predileção do
leitor. O fato é que minutos antes do jogo, seja ele decisivo ou não, clássico
ou não, com público engajado a transmissão dedica minutos a mostrá-lo em
atração à parte. Merecia até uma chamada soberana no intervalo da programação:
“Às 21h50 não perca a festa da torcida”.
E ela irá ornar a partida do apito inicial ao final.

Estádio
cheio é o pulso do futebol. O jogo é outro quando cadeiras e blocos de cimento
estão fartamente ocupados. O  efeito é
geral. No meio da massa, impossível ficar inerte. Na poltrona de casa, os olhos
se fixam na tela. E no campo, o sangue e a alma do jogador mudam de
temperatura. Na última rodada do Brasileirão, a 16ª, dois jogos exemplificam o
quanto uma casa repleta de gente pode interferir no grau de vida de uma
partida. No Mineirão, mais de 47 mil pessoas viram Atlético-MG e São Paulo
disputarem um jogo  franco, de múltiplas
chances de lado a lado. Euforia e quatro gols. No Maracanã, público maior ainda
– acima de 60 mil –  acompanhou o ótimo 2
a 2 entre Flamengo e Santos, com reação dos visitantes após o Rubro-Negro abrir
2 a 0 e, nos minutos finais, os cariocas perdendo uma série de gols..
Estivessem às moscas, tenho sérias dúvidas de que veríamos jogos tão intensos e
atraentes.

jogos com ótimo público que são ruins, com pouco ou nenhum gol. Mas
dificilmente essas partidas são desanimadas (desprovidas de alma), arrastadas.
Basta tomar os campeonatos Alemão e Inglês como exemplo. Os dois têm as
melhores médias de público do mundo e poucos jogos modorrentos. Se é verdade
que o nível das partidas se beneficia do poderio econômico dos clubes, repletos
de astros do mundo todo, não dá para ignorar a contribuição da ocupação dos
estádios para injetar emoção nas disputas.
Estádio
repleto pode não ser capaz de transformar um cabeça de bagre em atleta
refinado, mas certamente aumenta a fome de quem está em campo. O Campeonato
Brasileiro tem sofrido ano a ano com o chicote da crítica. Algumas rodadas com
alta média de público, como a última, podem ser só um sinal de fumaça. Mas
também pode ser a esperança de que o torcedor esteja disposto a interferir no pulso
dos jogos.

Valdomiro Ferreira Neto

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