quarta-feira, setembro 23, 2020
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Tostes prevê queda nas contas do Fla e contradiz Presidente.

Globo
Esporte – O relatório financeiro do primeiro semestre de 2015 aponta para um
Flamengo mais forte e menos dependente de receitas extraordinárias para
investir, especialmente, no futebol. Mas o cenário atual é perigoso. A crise
econômica do país tem impacto direto nas finanças do clube e o quadro pintado
pelo vice-presidente da área, Rodrigo Tostes, é sombrio. Ele projeta um 2016
pior do que o ano atual, cita alta dos juros e do dólar, e afirma que não deve
ter “refresco”. Mas as visões são distintas no Rubro-Negro. Na
contramão de Tostes, o presidente Eduardo Bandeira de Mello diz ter certeza que
“a situação a cada ano que passa vai ficando mais confortável”.
No
início da atual gestão, a diretoria previa que um possível segundo mandato
seria de forte investimento no futebol, mas, de acordo com a análise de Tostes,
a situação de momento força um recuo justamente nos meses que antecedem a
próxima eleição presidencial no clube. Wallim Vasconcellos, que será candidato
no pleito, concorrendo com Bandeira, anunciou no lançamento de sua chapa que
terá o apoio do vice de finanças. Tostes, no entanto, até o momento não se
pronunciou oficialmente sobre esse assunto.
A
equação de Tostes é simples: se os juros sobem, a dívida rubro-negra também.
Ele destaca que o clube teve bom desempenho diante das circunstâncias, mas
abaixo do esperado. Para o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, a
situação pode melhorar um pouco com a possibilidade de diluir a dívida
tributária com a Lei de Refinanciamento Fiscal do Esporte, aliado ao fato de o
clube ter conseguido prolongar dívidas de curto prazo, diminuindo o valor de
parcelas.
De
acordo com o relatório rubro-negro, no primeiro semestre a receita bruta
atingiu R$ 172.749.168, o que representa um crescimento de 1,5% em relação ao
período no ano passado. A receita líquida recorrente – descontados impostos e
receitas extraordinárias com venda de direitos federativos – subiu 1,1%,
atingindo R$ 163.146.845. Diz o relatório que as receitas de marketing e
transmissão foram a alavanca do aumento, compensando queda nas receitas de competições.
As despesas operacionais tiveram redução de 6,1% no primeiro semestre, ficando
em R$ 101.256.926, enquanto em 2014 fecharam o primeiro semestre em R$
107.820.434. O texto destaca os resultados em período de “forte retração
de investimentos, alta inflação e redução do poder aquisitivo dos
consumidores”.
O
Flamengo destaca ainda um resultado operacional recorde de R$ 62.397.262 no
semestre, com 9,3% de aumento em relação ao mesmo período de 2014. O superávit
do exercício, no entanto, caiu 6,3% se comparado ao ano passado, fechando o
primeiro semestre em R$ 36.749.860. O clube afirma ter pago R$ 25.677.402 em
dívidas no primeiro semestre – em 2014 foram R$ 17.953.759. Segundo o
relatório, o endividamento líquido atual está em R$ 551 milhões – e segundo
Bandeira de Mello a expectativa é de que seja reduzido para algo próximo dos R$
500 milhões até o fim do ano. O documento diz que o Flamengo “vem
construindo as bases para um crescimento sustentável no ciclo 2016-2018”.
O
total de empréstimos também aumentou. Em dezembro de 2014, a soma era de R$ 140
milhões. No fim de junho deste ano, o total era de R$ 144 milhões. Porém, há a
ressalva de que o montante devido a curto prazo foi reduzido de 50% para 39%. O
déficit do balanço de pagamentos de curto prazo do clube caiu de R$ 130.593.321
para R$ 78.346.971. O clube comemora ainda os dados de que, no primeiro
semestre, o gasto com pessoal do departamento de futebol foi de 39% do total de
arrecadação, bem abaixo do teto de 50% estipulado nas próprias regras internas
de responsabilidade fiscal do clube – e muito distante dos 70% previstos na
LRFE.
Corte maior de despesas
Para
Tostes, contudo, um corte ainda maior de despesas é iminente e absolutamente
necessário. O vice de finanças afirma ter sido conservador no orçamento feito
no ano passado, mas que ainda assim o lucro líquido está menor do que se
imaginava:
– A
minha visão, como acho que a de qualquer pessoa que entende minimamente de área
financeira no Brasil hoje, é de preocupação. As perspectivas não são boas. Eu
quando fiz esse orçamento em outubro, fui conservador, e o nosso lucro líquido
está bem menor do que a gente imaginava. Já fomos conservadores, mas a gente
fez esse orçamento lá atrás sem saber que o dólar estaria desse jeito, os juros
estariam do jeito que estão, e que o país estaria passando o que está passando.
Então a minha visão, não só de Flamengo, da situação como um todo, é que é
muito preocupante. Apesar de tudo isso, conseguimos pagar R$ 51 milhões de
dívidas, estamos mantendo as contas em dia, mas tenho um olhar de preocupação,
tanto é que vamos estabelecer agora um aumento ainda maior de corte de despesas
– analisou.
O
dirigente fez uma previsão pouco otimista para 2016 e considera que isso
afetará diversas receitas, não somente a dívida.
– A
gente precisa se preparar para um ano de 2016, acredito eu, pior do que 2015. E
isso impacta em tudo, em bilheteria, sócio-torcedor, em patrocínio. Não dá para
projetar um ano que vem melhor do que esse ano em termos de investimento para o
futebol porque a gente não sabe qual será a nossa realidade de patrocínio, de
sócio-torcedor, hoje a gente passa por uma crise, a gente precisa entender que
o país está em crise. Se você leu os relatórios de hoje, o Bank of America está
projetando o dólar a R$ 4,10 em janeiro. Isso quer dizer 20% de juros no final
do ano, a projeção é essa. Impacta a nossa dívida, em vez de ter de pagar R$ 50
milhões, dos quais 50% são juros, eu vou pagar R$ 80 milhões. Simples assim. E
aí se eu vou pagar R$ 80 milhões, para manter as CNDs (Certidões Negativas de
Débito), eu vou tirar dinheiro de onde? Eu não posso mais ficar sem as CNDs.
Vou ter de tirar de investimento – explicou.
Para o
presidente Bandeira de Mello, a situação atual é mais confortável do que quando
a diretoria assumiu o clube. E acredita que será mais fácil fazer investimentos
como foi feito para a contratação de Paolo Guerrero, que rapidamente conquistou
a torcida rubro-negra.
– Com
certeza, a nossa situação a cada ano que passa vai ficando mais confortável. É
arrecadar mais e gastar menos. A partir de agora cada vez fica mais fácil fazer
um investimento como fizemos no Guerrero. Não afetou em nada a nossa política
de responsabilidade, estava tudo dentro do orçamento e o que tivermos de pagar
dentro desse investimento será pago religiosamente.
Bandeira
de Mello explicou que a possibilidade de parcelar as dívidas fiscais por um
período mais longo complementará a política do clube de reduzir o endividamento
de curto prazo.
– A
gente tem feito isso sempre, mas agora com a MP 671 isso vai se acentuar,
porque a gente vai poder diluir toda a dívida tributária em 240 meses. Isso
gerava uma situação que no início era dramática e que hoje ainda tem um
pagamento substancial que vamos reduzir bastante com essa diluição
proporcionada pela MP. E também pelos abatimentos que são feitos de multas,
encargos legais e juros de mora, que estão no bojo da MP.
Sobre
o pagamento de dívidas, o presidente afirmou:
– É um
processo que já vem desde 2013, tem de gerar um resultado operacional positivo
para ter recursos para pagar a dívida e ao mesmo tempo gerar recursos para as
atividades do clube. O número não temos qual vai ser, mas imaginamos algo em
torno dos R$ 500 milhões.

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