Um tira-gosto de um Flamengo que pode oferecer mais.

Rogério Ceni vendo Guerrero comemorar gol pelo Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE
CRUZADO
: Por Pedro Henrique Torre

Fosse o velho Maracanã, provavelmente a torcida teria entoado um
“Diego toca a bola, Guerrero deita e rola. E só da Mengo!”. Por um breve
instante, foi mesmo assim. Um lance, com tabelinhas de encher os olhos entre
Guerrero, Everton Ribeiro e Diego até chegar ao gol de Renan Ribeiro. Um
tira-gosto do que o elenco rubro-negro é capaz. No geral, não foi assim. Era um
jogo equilibrado até o primeiro gol. Mas a qualidade falou mais alto. Dois
lances de técnica foram suficientes para garantir a vitória de 2 a 0 sobre o
São Paulo, na Ilha do Urubu. Triunfo de um Flamengo que indicou que, sim, pode
fazer bem mais.

A
partir deste domingo, o torcedor rubro-negro tem um lance para se basear quando
se empolgar com o entrosamento de Diego, Everton Ribeiro e Guerrero. Não será
apenas a própria imaginação. Antes, porém, o time foi moroso. Tinha até a maior
posse de bola na partida, priorizava o jogo pelo chão, trocava passes. Mas era
pouco incisivo. O 4-2-3-1 de sempre. A diferença era Everton Ribeiro. Ele é
exatamente o que o time de Zé Ricardo precisava. Auxilia Pará na marcação e, ao
atacar, cai por dentro para dialogar com Diego e Guerrero. Cabia a ele acelerar
o jogo.
Rogério
Ceni promoveu a estreia de Petros e indicou um trio de volantes para tentar
emperrar a dupla Diego e Everton Ribeiro. Jucilei, Petros e Wesley. O problema
para o São Paulo é que por vezes Everton recuava na esquerda do Flamengo,
também formando um trio de marcação ao lado de Márcio Araújo, desta vez como
primeiro volante ao contrário dos confrontos contra Fluminense e Santos, e
Cuellar. Cueva, posicionado mais à esquerda do ataque do Tricolor Paulista, era
bem acompanhado por Pará e buscava o jogo pelo meio para achar Pratto. Um jogo
mais igual. Muito em conta, como dito, de um Flamengo que optava por cadenciar
a partida. Bastava acelerar, usar a técnica, trocar passes em velocidade para
desmantelar o sistema defensivo do São Paulo. Conseguiu por alguns minutos. Foi
o suficiente.
No
acelerar, Petros, que já tinha carimbado as canelas de Diego e Everton Ribeiro,
derrubou Guerrero na entrada da área. Aí a qualidade apareceu, em mais uma bela
cobrança do atacante peruano na temporada. 1 a 0. Na empolgação a torcida, o
Flamengo pareceu mais elétrico, interessado em ser incisivo. Foi. Trocou
passes, procurou espaços, rodou o jogo de forma mais rápida e aproveitou o
atordoamento momentâneo do São Paulo. Guerrero girou, achou Everton Ribeiro,
que entrou na área e tocou com categoria para a conclusão com classe de Diego.
Um golaço. Um tira-gosto do que o elenco é capaz. Sem cruzamentos, sem bolas
alçadas. De pé em pé, costurando buracos na defesa adversária. 2 a 0.
A
vitória parcial no primeiro tempo modificou o panorama do jogo, naturalmente.
Inicialmente postado para combater o Flamengo no meio e esticar bolas em
contra-ataque pelos lados, o São Paulo mudou. Saiu Wesley, que atuava mais como
volante, e entrou Denilson na esquerda do ataque. Cueva centralizou e o
Tricolor pareceu entrar também em um 4-2-3-1. Mas bem fechado, ainda esperando
o Flamengo. Que se fartou de trocar passes, com calma, enquanto o visitante
tentava não dar um espaço fatal. Mas deu. Em um momento que o Flamengo
reproduziu um bom momento, Diego lançou bola da defesa até Pará na direita.
Dali para Guerrero, do peruano para Everton, que, afoito, bateu direto para a
defesa de Renan Ribeiro. O Flamengo chegava, encorpava. O São Paulo sentia.
Em
mais um lance de troca de passes, o pelotão rubro-negro voltou a fuzilar Renan
Ribeiro. Diego e Guerrero, duas vezes, chutaram forte para a defesa do goleiro,
que contou com auxílio de Rodrigo Caio. De imediato, os dois técnicos mudaram
suas ideias de jogo próximo à última metade da etapa final. Ceni sacou Marcinho
para colocar Wellington Nem. Queria mais o ataque. Zé Ricardo tirou Everton
Ribeiro e pôs o veloz Berrío, indicando que daria campo para ter o
contra-ataque. Dito e feito. O Flamengo recuou, tentou administrar a vantagem.
Por vezes, até demais.
Defensivamente,
o Flamengo geralmente se porta em um 4-4-2, com Diego e Guerrero à frente.
Desta vez, alternou entre um 4-1-4-1, com Márcio Araújo como o homem à frente
da defesa e apenas Guerrero no ataque. Em outras, Márcio avançava e formava um
bloco de cinco jogadores com a participação de Diego. O São Paulo teve mais a
bola, girou o jogo, tentou penetrar e quase conseguiu diminuir em um chute de
Cueva que Rhodolfo salvou em cima da linha. Técnico, o Flamengo geralmente se
incomoda quando aceita simplesmente a pressão adversária e busca o
contra-ataque. Um jogo mais pobre com jogadores de maior qualidade. Na própria
partida, a equipe de Zé Ricardo provara que pode bem mais.
É,
claro, um sinal animador de um trabalho que esfarelava e colecionava atuações ruins,
como a dura vitória sobre o Bahia, há apenas uma semana. Diante do Santos, no
meio de semana, a apresentação foi melhor. Há uma melhora. Mas a distância para
o líder Corinthians permanece a mesma, de nove pontos. Por mais que tenha de
administrar o desgaste do calendário, o elenco do Flamengo pode mais. Aumentar
o saldo de gols pode ser fator decisivo para a disputa do título brasileiro.
Aos poucos, Everton Ribeiro já indica que irá mesmo ajudar a mudar o patamar de
atuações.
Em um
dia que Márcio Araújo cumpriu o básico, sem arroubos no ataque, o time teve uma
vitória importante, com um ótimo tira-gosto. É um elenco muito cobrado porque
pode bem mais do que simplesmente lançar e cruzar bolas na área adversário. Por
isso, o lance do gol de Diego não vai sair da memória rubro-negra tão cedo. Ele
reflete, sim, a ambição das contratações. O sonho da arquibancada. A promessa
do ano mágico. Qualidade para repeti-lo não falta.

Por: FlaHoje

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