Vaiar ou calar?

Protesto da torcida do Flamengo pedindo raça e saídas de Rodrigo Caetano e Fred Luz – Foto: Divulgação

FALANDO DE FLAMENGO: Por Marcella Mello

E não
é que voltei para criar um caso? Pois então, estou aqui para falar sobre um
tema que muito se discute, muito se desgasta, muitos apoiam, outros abominam e
assim segue a democracia do torcedor, que deve ser respeitada em primeiro
lugar.
Nada
de dar showzinho ou massacrar o coleguinha. Somos todos torcedores, nem mais,
nem menos que os demais. Legítimos.
Assim
que você nasce pode ter certeza que na grande maioria dos casos, ainda nem se
escolheu o nome mas já definiram qual torcida você vai engrossar o coro. Lá em
casa, por exemplo, se não for Rubro-Negro, nem nasce. E tal legitimidade em
tempos de redes sociais, passou a ser questionada.
Quem é
mais torcedor? Quem é falso torcedor? Quem é o verdadeiro torcedor?
Mas a
verdade é que não há cartilha, manual, ou a bíblia do torcedor. Não há nada que
legitime ou não um comportamento.

quem diga que o Flamengo é uma religião. E como tal, não se pode contestar,
difamar ou ir contra, sob o risco de se tornar um herege.
Tem
também que faça da relação como se o Clube fosse um filho. Podemos reclamar do
diretor (presidente do clube) da escola que ele estuda, mas não podemos ir à
escola (estádio) e vaiar o moleque (time) quando não vai bem.
Mas
tem aquela relação mais passional, onde, em nome de todo esforço, toda
dedicação e tudo mais que é feito, dá o direito ao torcedor a abrir o berro e
soltar a vaia. Afinal, cadê meu valor de torcedor convertido em gols e
vitórias?
Seja
lá a forma de torcer, não há o certo nem o errado. Desde que com respeito, é
legitimo ao torcedor soltar a voz. E quando falta o grito de gol, sobra o grito
da insatisfação.
E cabe
ao torcedor e àqueles que gerem diretamente o futebol, que saibam trabalhar as
críticas recebidas.
Em
duelo válido pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro o Cruzeiro foi
dominado e derrotado pela Chapecoense no Mineirão, por 2 a 0.
O time
do Cruzeiro deixou o campo muito vaiado pela torcida.
Robinho,
experiente, declarou:
“O
futebol é assim, ninguém nunca vai entender a cabeça do torcedor. Eu fico bem
tranquilo porque sei que se tivéssemos ganhado, seríamos os melhores, o líder.
Como quando nós ganhamos na Vila Belmiro, nosso time era guerreiro. Isso faz
parte. A gente tem que entender que isso é a rotina do jogador, tem que estar
acostumado com a vaia. Eu não vou sentir pressão, de maneira alguma. Temos que
absorver isso da melhor maneira possível para entrar em campo no próximo jogo e
vencer”
Será
que este é um problema? Saber ou não lidar com as vaias? Não seria o caso e
olhar por outra ótica? Por que dizer ao torcedor que não deve vaiar, e não
receber as vaias como uma crítica à um resultado não entregue?
Para
entender melhor sobre o tema, perguntei ao nosso ídolo maior, Zico, qual foi a
maior vaia recebida por ele. E como ele reagiu?
Zico
lembrou de primeira sobre junho de 1979 quando a Seleção do “Resto do Mundo” da
Fifa enfrentou a Argentina em comemoração pelo Aniversário de um ano da
conquista da Copa do Mundo de 1978.
“Bearzot
(Enzo), técnico italiano convocou eu (Zico), Leão e Toninho, e quando nossos
nomes foram anunciados ,eu e Toninho que entramos ,foi a maior vaia que ouvi na
vida. Argentina vencia por 1×0 e no segundo tempo dei o passe pro Paolo Rossi
fazer o gol, mas o zagueiro fez contra, e depois o Toninho me deu o passe que
fiz o segundo e gol da vitória. Que bom calar 70 mil pessoas no Monumental de
Nunes, estádio do River Plate”
Diante
do relato do nosso ídolo maior, refleti o seguinte: a vaia do adversário
aumenta a vontade de ganhar? Ou não faz diferença de onde parte a vaia, o brio
e a vontade de reverter o quadro é sempre (ou deveria) ser maior?
Tite,
o técnico “garoto propaganda” da Seleção Brasileira, por muitas vezes, quando
ainda técnico do Corinthians, em suas coletivas, pediu ao torcedor apoio, e que
no lugar das vaias, seus atletas pudessem receber incentivo de sua torcida.
Diretor
executivo de Futebol, Paulo Pelaipe, diz o seguinte sobre vaias:
“A
vaia do torcedor atrapalha e muito uma equipe de futebol, ela desestabiliza,
cria uma ansiedade, uma angústia, pois se os resultados não chega os atletas
tentam resolver os problemas sem a tranquilidade, ficam afoitos, procuram
alguns, até a se esconder pra que a bola não chegue à eles. Durante os 90
minutos o torcedor tem que incentivar independente de quem esteja vestindo a
camisa do seu clube. Depois da partida, com o jogo encerrado, quando a equipe
não fez por merecer, aí sim sou favorável a vaia do torcedor como forma de
protesto pela atuação deficiente, este é um meio válido, pois esta é a arma do
torcedor VAIAR, sem agressões, sem atitudes que não combinam com a civilidade.”
Ouvimos,
e constatamos democraticamente as mais variadas opiniões sobre o tema vaia.
Ao
final, o que precisamos pensar é no limite da vaia, do xingamento e do insulto.
Por muitas vezes uma manifestação pode mostrar mais que uma insatisfação, e sim
uma atitude mal educada e por vezes, violenta. E no futebol, essa natureza
competitiva inerente ao ser humano é amplificada. E já que nós, torcedores, não
podemos entrar em campo para “resolver”, depositamos todas as nossas
expectativas nos pés daqueles que nos representam. E além da expectativa,
colocamos a paixão. A relação torcedor e time, não cabe entendimento. E a intensidade
dessa relação só pode ser medida e avaliada por aquele que o sente.
Portanto,
sem querer criar regras ou manual de bons modos, é preciso sempre colocar à
frente de tudo o bom senso, e o respeito ao modo de torcer daquele que
independente de torcer como nós, também carrega a paixão pelo clube. É preciso
respeitar a legitimidade de torcer, criticar e até mesmo vaiar, e sobretudo é
preciso uma reflexão do limite. Até onde sua vaia não se tornou falta de
respeito com o próximo?
Sendo
assim, antes que eu receba uma vaia, vou fazer meu apelo: torçam. Apoiem. E
acima de tudo: Respeitem. Somos todos torcedores.

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