segunda-feira, setembro 28, 2020
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Zico. O que o mundo perdeu, ganhei. 35 anos depois.

Foto: Divulgação

MAURO
BETING
: É uma honra, aula, alegria e prazer conviver e trabalhar com ele. Um
sonho não delirado dividir microfone. Um delírio comentar Liga dos Campeões
pelo Esporte Interativo com um ZIco de craque, um Zico de pessoa. Uma loucura
estar in loco na véspera de Real Madrid x Bayern de Munique no gramado da
Santiago Bernabéu.

Pouco
antes de tirar essa foto, perguntei já na madrugada avançada se Zico já havia
atuado ali.
– Não.
Nem pelo Flamengo (onde ganhou tudo), nem pela Seleção (onde conquistou o mundo
sem ganhar a Copa).
– Era
para a gente ter jogado aqui na final de 1982…
Não
tinha pensado nisso. Fiquei passado pelo nosso passado dolorido.
Copa
na Espanha. Barcelona. Sarriá. Paolo
Rossi. Zoff. Gentile. Bearzot. Zebra. Itália. 3 x 2. Futebol. A vida.
Eles
todos, e um pouco de todos nós, não deixaram Zico e companhia ilimitada jogarem
a final mundial contra a Alemanha em Madri. Ficaram pelo caminho. Nem
semifinal. A derrota do Brasil de Telê empatou e empacou o futebol planetário.
Times e seleções passaram a jogar feio para ganhar horroroso. A praga
pragmática travou e entrevou o jogo por anos.
Zico
não jogou no estádio do Madrid. O mais perto do campo campeoníssimo da Europa
que o 10 do Maracanã ficou foi nessa foto. Não pedi licença para tirar, depois
de entrar ao vivo no canal, e em lives dos nossos Instagrams. Não pedi para ele
posar porque Zico não faz pose. Toma posse de quase todos os campos.
Menos
esse. A bola não deixou.
O
futebol que o fez Zico e que também me trouxe no meu cantinho a Madri não quis
que ele estivesse aqui. Meu irmão ficou mais de 10 anos não querendo mais jogo
depois de 1982. Muitos nunca mais choraram por futebol. Alguns desistiram.

Zico,
não. Seguiu. Mais venceu que perdeu. Empatou muito até naquela noite de 2017
chegar ao gramado do Bernabéu. Sem pompa, que ele não é disso. Sem papo, que
ele é de fazer, não falar. Sem bronca, que ele é de brincar.
Eu
trocaria minha felicidade de passar uma semana na Europa com amigos do canal
(waaaallll!) só para ter 90 minutos de Zico lá dentro do Bernabéu, tabelando
com Sócrates, lançando Chulapa, cabeceando cruzamento do Éder, trocando passe
com Falcão, ajudando Cerezo, assistindo Júnior, assistindo a Leandro,
defendendo Luisinho, orientando Oscar, segurando Valdir Peres, encantando com
uma das melhores seleções não-campeãs. Melhor que algumas que ganharam Copas,
mas não conquistaram o mundo.
Eu e
milhões trocaríamos nossas felicidades de uma semana de prazer por décadas de
alegria e orgulho por um time que nos defendeu atacando.
Zico,
você não ficou à margem do campo na foto. Você o iluminou. Não tinha luz
artificial ligada. Era a sua energia e a do Brasil de Telê que acenderam nossa
memória. Não pudemos vê-los ali. Mas para sempre vou poder dizer que, numa
noite de abril de 2017, 35 anos depois, o Santiago Bernabéu esteve como deveria
ter estado em 1982. Aos seus pés, Galinho de Madri.
Todo
seu.
Pela
sua generosidade, todo nosso.

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